Pós Retrospectiva

Sou leitora compulsiva desde a adolescência. As panelinhas de amigos (patotinhas, no meu querido carioquês) nunca foram a minha praia e, considerando que eu nasci na era analógica, naquela época eu tinha poucos amigos e tempo de sobra para me dedicar a muitas leituras.

Quem me conhece sabe que eu sempre tenho um livro para indicar, e essa posição, evidentemente, me faz ter poucas opções e já ser muito crítica em relação à escrita alheia.

O que me salva sempre é o blog Por Onde Gabi For, por Gabi Galdino, por várias razões, mas destaco 3:

i. amo a Gabi com todo o meu coração e gosto de pensar que a recíproca é verdadeira;

ii. Gabi e eu temos basicamente o mesmo gosto literário e as críticas dela sempre fazem muito sentido para mim; e

iii. não é só mais um blog. É uma narrativa sobre coisas que funcionam pra minha vida, de comida e viagens que eu amo até cosméticos e os meus livros favoritos.

Como vocês já devem ter notado, o título é pós retrospectiva então evidentemente isso aqui não é sobre livros nem sobre o meu amor pela Gabi.

O que eu estou enrolando para contar para vocês (e vou enrolar mais um pouco) é que eu penso que o mundo e a vida são coisas absolutamente integradas, e de qualquer situação aleatória da vida, se você estiver ligada, você consegue fazer conexão com várias outras coisas.

E com isso, eu já introduzi para vocês o que eu queria dizer com pós retrospectiva: fiquei pensando sobre como eu sai de uma situação bem complexa com que me enfiei e da qual eu levei muito tempo para sair. Falei um pouco sobre essa situação no meu texto anterior, me sinto pronta para falar sobre onde as coisas se encontraram e como eu fui capaz de manter uma sanidade mínima para sair disso.

Não preciso dizer que “superar” relações que deram errado é um processo de várias etapas, principalmente num relacionamento tóxico. Desde o incomodo até você olhar para o que passou e dizer “estou bem” são fases e fases, recaídas e tristezas, incompreensões e impressões equivocadas.

353 palavras e nada né? Me desculpem, já deu pra notar que foco não é o meu forte.

E falando sobre as minhas crenças limitantes, isso me dá o gancho do que eu quero falar.

Quando eu disse na analise retrospectiva que não foi “do nada” que a minha situação mudou, eu decidi analisar quais foram os fatores que realmente se impuseram pelo meu caminho além de ter um marido que manda em mim e do fato de eu gostar de brincar de casinha, eles disseram (contém ironia).

E o primeiro fator, é claro, se conecta com a introdução ai cima com um monte de groselhas introspectivas sobre livros.

Quando a Gabi resenhou a tetralogia da Elena Ferrante eu me animei porque fazia tempo que não lia nenhuma sequência e eu amo sequencias — vide minha obsessão por HP e Crônicas de Gelo e Fogo.

O que eu nunca fui esperar foi a dimensão do impacto que a Lenu — personagem principal — ia me causar. Mandei inúmeras mensagens para a Gabi para falar do livro e o que mais esteve presente para mim foi o lugar onde Lenu e eu mais nos encontrávamos: no complexo de impostora.

“Apesar dos esforços contínuos para encontrar um lugar no mundo, Lenu nunca parece se sentir de fato confortável. Ela se torna reconhecida pelo seu trabalho literário, mas sempre enxerga poréns. Duvida de seus méritos. Acredita que é apenas o acaso. Acha que o que fez ainda não é suficiente. Está sempre questionando aquilo que foi capaz de botar no mundo. Essa leitura que ela faz de si própria acaba forçando a personagem a continuar sempre e sempre se debatendo com a vida; ela nunca descansa. E isso torna seus esforços tão frenéticos e intensos que a levam a vários dissabores.

Não por um acaso o livro faz bastante sucesso nos circuitos feministas. Além da Síndrome de Impostor na qual me reconheci tão facilmente, estão lá no livro outros aspectos bem singulares da sociabilidade feminina, como as relações mãe e filha, as violências silenciosas (e outras nem tanto) sofridas pelas personagens ao longo de toda tetralogia, a competição com sua amiga, e a tentativa de construir uma independência. A Síndrome de Impostor, no entanto, me pareceu tão significativa e determinante no rumo da vida da personagem que senti que precisava falar sobre ela, talvez para exorcizar também alguns dos meus demônios.”

trecho de Carla Soares, para o Mulheres que Escrevem

(Bem, se vocês nunca ouviram falar em complexo de impostora, parem tudo o que estão fazendo e vão pesquisar sobre isso agora. Se vocês não conhecem Elena Ferrante, leiam. Se vocês não têm o habito de ler, peloamordebeyonce, nunca é tarde para começar. )

Lenu se vê muitas vezes sufocada numa relação que seria, em tese, equilibrada e igual, mas a sua auto sabotagem e o perfil autocentrado de Lila, a amiga, desequilibram constantemente a relação, colocando até a carreira bem sucedida de Lenu em questão.

Vocês não podem imaginar o quanto eu me vi em Lenu, duvidando de mim mesma, questionando meus valores, meus planos, minha vida, minhas escolhas, minha capacidade e quantas vezes eu me peguei gritando, com ela e comigo todas as vezes em que a amizade febril esteve no topo das prioridades da vida dela e da minha.

Lenu e eu nos misturamos, nos confundimos, nos libertamos.

Essa tetralogia de livros me confrontou com a minha realidade. Com os meus medos, com os meus complexos, com tudo que eu queria ser e não era por minha única e exclusiva auto sabotagem.

É claro que esse descortinar não teve apenas esse ato. Teve tanta gente segurando a minha mão, me ouvindo gritar, chorar, surtar, duas, três, quatro, vinte vezes.

E esse pós retrospectivo se torna pra mim um objeto para expressar a minha gratidão por todas essas pessoas que acreditaram em mim mais do que eu, desde o primeiro olhar.

André, Luana, Gabi, Dani e Tay: vocês têm o melhor de mim.

Galera do Advogabilidade: eu vou morrer agradecendo o universo por ter nos unido com o timing mais perfeito.

Amanda, um dia eu te roubo pra mim e você vai ser minha sócia, pra gente brigar bastante e sair para tomar cerveja depois.

Bia e Layra, vocês, cada uma a seu modo, sabem onde estar na hora certa, sempre e isso é incrível. Gratidão pela fração de tempo e espaço que nos uniu.

Por fim, é importante dizer que nominar pessoas publicamente em agradecimento é se colocar presente no risco de esquecer de alguém importante. É isso que eu quero para o meu 2020 e desejo para o seu.

Corra riscos.

Assuma a responsabilidade por quem você é e pelo que você quer ser.

Peça desculpas quando fizer merda e se não tiver oportunidade de corrigir seus erros, nunca se esqueça que é só na matriz do erro que a gente aprende a acertar.

Muita gente vai ficar pelo caminho. Muita mesmo. Esteja preparada para perde-las.

Esteja também aberto a quem chega, ao novo e às possibilidades. A merda costuma ser quentinha mesmo mas vale se questionar se é isso mesmo, sempre e sempre.

Aos erros, o peso que eles merecem.

Aos acertos, comemoração sempre. Com vinho bom, comida boa, música boa e com abraços dos amigos.

A vida vale a pena. Não se economize.

de quando eu ainda não tinha me ouvido gritar com Lenu

Vulnerabilidade

publicado originalmente no instagram do coletivo Maternando Direito

https://www.instagram.com/maternandodireito/?hl=pt-br

A advocacia é uma das profissões mais romantizadas na maioria das sociedades ocidentais. Salto alto, saia lápis, caneta chique, cabelo super alinhado e grandes contratos comemorados com espumantes são alguns dos símbolos da nossa profissão que estão disponíveis em qualquer enlatado americano.

Isso alimenta não apenas a ideia de que a carreira jurídica é uma carreira por si só de sucesso e glamour como também a pressão social sobre os nossos ombros a cada vez que somos chamadas de doutoras e instadas a dar a nossa opinião/verdade absoluta sobre determinado assunto.

A realidade que vivemos é de mais de um milhão de profissionais tentando pagar a cachoeira de boletos que jorra para todos os brasileiros da casa da advogada à casa das professoras dos nossos filhos, da casa da caixa do supermercado à casa da servidora pública.

E nem só de pagar boletos vive a profissional de hoje: ela também quer viajar o mundo, quer fazer mestrado, quer sair para tomar um chopp com as amigas e ir ao teatro com o marido. Quer dar uma ótima educação aos filhos, falar uma segunda ou terceira língua, criar cachorros e gatos com todo amor e carinho e ainda escrever na internet!

Essa matriz de sucesso que a nossa sociedade impõe à um ritmo frenético, se pensarmos naquela velha ideia das coisas que precisamos fazer/ter até os 30 anos[1], aplicada ao nosso cotidiano de “mãe, advogada, as duas coisas ou coisa nenhuma” parece ser a formula certa da nossa angustia e ansiedade diária.

Na tentativa de diminuir essa angustia e ansiedade diária, e motivada a encontrar um propósito maior nessa loucura diária que a gente vive, há um ano eu, Ligia,iniciei uma transição bastante lenta e gradual na carreira, para sair de uma lógica de trabalho que não era a minha e que não me fazia bem por razões que não cabem nesse texto.

Isso significou trabalhar mais de 12 horas por dia, trabalhar em sábados, domingos, feriados e em horários pouco ortodoxos, tudo para dar conta de manter tocar simultaneamente uma parceria com um escritório e o projeto de ser meu próprio escritório. Eu me organizei para manter essa jornada hercúlea até o momento em que o meu projeto fosse mais significativo para mim do que o escritório dos outros e também pudesse conter de alguma forma a tal cachoeira de boletos.

Claro que, como vocês sabem bem, a vida não é uma linha horizontal esse plano tão bem elaborado acabou por encontrar um problema chamado “fator humano”: fui desligada sumariamente do escritório onde eu trabalhava após manifestar meu desejo de mudança naquela parceria. E eu sofri muito, por várias razões: não era o que eu tinha planejado, era uma parceria que ia além do profissional e a forma como tudo se deu foi realmente aterrador para mim. E aqui entra exatamente o assunto que eu quero conversar com vocês: a importância da exposição da nossa vulnerabilidade não apenas para quem pode nos dar apoio em situações difíceis como esta, mas também para com os nossos filhos.

A exposição da nossa vulnerabilidade mostra para os nossos filhos que somos pessoas também, e que medo, insegurança, tristeza e decepção são sentimentos que adultos e crianças experimentam na mesma medida. Ensina nossos filhos que os momentos difíceis são parte da vida de todo mundo e que o mundo plástico das redes sociais é uma minúscula fração daquilo que se vive no mundo real.

Para mim, viver essa experiencia tão intensa e compartilhar isso com meu filho, Henrique, fortaleceu nossa relação e forneceu a ele a oportunidade de falar sobre sentimentos que fazem parte da bagagem de vida que precisamos para seguir em frente quando tudo parece perdido.

Na sua família, qual a importância da vulnerabilidade? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe as nossas dicas sobre o que é preciso para escolher a coragem e não o conforto na cultura de hoje[2].

[1] A advogada Camila Masera falou sobre a famigerada lista do que fazer antes dos trinta num ótimo texto quando ela trintou.

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Acho que os últimos dias na década dos 20 fazem a gente refletir sobre a nossa identidade, personalidade e o rumo que as coisas andam tomando na vida, sabe? É tanta gente falando que os 30 são a melhor fase da vida da mulher, que a gente fica meio introspectiva antes de soprar as velinhas da nova década. Na semana pré-niver, lembro que digitei no Google “lista de coisas para se fazer antes dos 30”, pra saber se a pré-balzaquiana aqui estava levando uma vida que valesse realmente a pena. Choquei com a quantidade de sites e blogs que estampavam inúmeras listas das mais variadas coisas para se fazer antes do tal #trintei. Algumas listas continham coisas engraçadas e outras alguns itens inusitados que me fizeram adentrar numa viagem louca chamada “minha vida”. Lembrei, por exemplo, do meu último porre. Lembrei da minha primeira viagem sozinha. Da primeira vez que mandei meu telefone em um guardanapo. Da primeira vez que falei em público. Da última saída com as amigas pra dançar até o dia amanhecer. Da minha primeira conquista profissional e de muitos outros momentos que me fizeram abrir um sorrisão de gratidão, porque todas essas coisas, por mais “coisinhas” que possam ser, é que fizeram a minha vida realmente valer a pena, até agora. Daí, trintei e… nada de extraordinário aconteceu. Nenhum hormônio mirabolante explodiu dentro de mim, nenhuma ruga nova apareceu, a não ser aquelas poucas que já coleciono no meu rosto, com orgulho. A maturidade não vem com a idade, vem com as experiências. Se hoje estou na minha melhor fase, certamente, é por conta destas últimas. As vezes a gente fica colocando tanta expectativa no futuro, nos checks de listas, no próximo objetivo e na próxima meta, que esquecemos de quão delicioso é apreciar o PRESENTE e de agradecer por todas as coisas boas que o PASSADO já nos deu… tudo isso faz, sim, a vida valer a pena. Nós temos o HOJE. Aprecie sem moderação. • #sobredomingos #textosdacamilão

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[2] A call to courage, Bene Brown