9,3%

Esse número acaba de me decepcionar.

Revista Exame, São Paulo — O Brasil sofre uma epidemia de ansiedade. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o País tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com o transtorno. O tabu em relação ao uso de medicamentos, entretanto, ainda permanece.

https://exame.com/ciencia/brasil-e-o-pais-mais-ansioso-do-mundo-segundo-a-oms/

Quando comecei a pensar sobre isso, na minha cabeça ele era 3x mais alto e eu ia dizer que na minha vida ele é ainda maior. Claro que eu vim pesquisar antes de escrever qualquer merda podem rir, já sabem que vai ter merda mesmo assim e descobri que subnotificação é uma coisa em moda no Brasil há muito tempo.

Digo isso porque minha rápida pesquisa no grande oráculo Google me informa que, muito muito muito muito abaixo do que eu esperava, apenas 9,3% dos brasileiros sofrem de ansiedade. E ele me parece assustadoramente baixo por que 95% das pessoas que eu conheço são ansiosas (segundo o instituto Liginha blablabla de pesquisa).

Mas ele faz bastante sentido quando me lembro que 90% dessas 95% pessoas que eu conheço que demonstram algum nível de ansiedade chama ansiedade de várias outras coisas.

Tem gente que adota o grande clássico das entrevistas de emprego dos anos 2000: “sou perfeccionista” rárárá gente, para né? Perfeccionista é exatamente a tradução do jargão corporativo para ansioso controlador. Fora que saiu de moda há já tem uns 10 anos.

Tem ansioso controlador que prefere uma saída mais na linha do softsilks, mais moderno e arrojado, se definindo como organizado e planejador, porque a gente precisa estar preparado, né?

Alguma coisa pode acontecer, alguma coisa vai acontecer, alguma tem que acontecer. E vai. Ou não.

A vida, na real, não tem uma lógica, saca?

Mas aqui a ansiedade é que pelo menos estamos preparados.

Bem, em abril de 2020, é bom estar preparado mesmo. Inclusive para o apocalipse zumbi, que tá batendo na nossa porta. E aí, minha gente…é que quem tem ansiedade perde o sono mesmo.

“é tarde, é tarde, é tarde, é tarde, é tarde”, diz o coelho branco, sempre atrasado para o que nunca sabemos.

Claro que eu não sou ansiosa, como 90,7% dos brasileiros, ou claro que sou sim, inadvertidamente ansiosa, assim como 95% das pessoas que eu conheço e que fingem que não.

(a não ser para aquelas características que poderiam pegar bem em uma entrevista de emprego, mas eu dizer isso?  Bem, eu não faço entrevistas de emprego porque eu não quero um emprego rs. E depois, alguém consegue me imaginar dizendo: “sou perfeccionista”? Definitivamente não.

Aliás, eu sou exatamente o tipo de pessoa que ri de quem é perfeccionista e eu não vou citar nomes porque ainda não superei esse dilema ético de mencionar pessoas assim publicamente sem autorização. Mas você sabe que eu to falando de você, né? To rindo mas é com respeito, juro.)

Enfim, voltando aqui pra coisa da ansiedade, eu tive vários altos e baixos no começo da quarentena. Não que eles tenham passado totalmente, mas diminuíram muito quando eu passei a estar apenas no agora. Vivendo um dia de cada vez, no melhor estilo diário de um detendo (salve Racionais MC´s).

Falando sério, eu já vinha bem ansiosa desde o impeachment (da Dilma, calma, torcedores) por conta da minha posição política e de tudo o que estava sendo desenhado ali.

É bem agoniante acompanhar política, mas infelizmente eu sou viciada nisso. E agora, em 2020, com tudo o que está acontecendo enquanto eu me torno uma pequena analista social, é incrível como cada vez mais é possível compreender nosso papel histórico nesse tipo de acontecimento.

E, verdade seja dita, em que pese minha ligeira aversão por academicismos, é impressionante o quão mais fácil a vida se torna quando você conhece Sartre e Norbert Elias (e sim, eu consegui citar os dois na mesma frase embora numa referência que talvez só faça sentido na minha cabeça, se é que me entendem hahahaha).

Estou falando desses dois e esse monte de groselhas querendo dizer, na verdade, é que a ansiedade é montada sobre camadas de gatilhos infinitos, que criamos dentro da nossa cabeça e nos quais tropeçamos o tempo inteiro.

E desarmar esses gatilhos é entender de onde eles vêm. Terapia ajuda, às vezes remédio também. Não subestimar distúrbios psicológicos, o autoconhecimento e a busca por ajuda profissional ajudam muito.

Se voltar para dentro de si é um tabu, ficar em silencio é um tabu. Não ter nada para dizer, não querer responder whatsapp, demorar para ler os e-mails, não ser superprodutivo com tanto “tempo livre” é proibido.

Impressionante como o culto ao trabalho, com os status produtivos e assertivos, seguem como a pedra angular da vida da maioria das pessoas. Impressionante como ser trabalhador é uma puta elogio, colocado em um pedestal intocável e inquestionável do dever ser, enquanto aguardamos tudo “voltar ao normal”.

trabalhador brasileiro trabalha igual burro e não ganha dinheiroooooooooooooooooooooooooooooo Seu Jorge entendeu porém não.

Enquanto deixamos todas as reflexões para alguém fazer por nós.

Enquanto deixamos outros decidirem por nós.

Enquanto deixamos a vida escapar por entre os dedos (lavados com água e sabão, cheinhos de alquigel).

Talvez essa vida não se perca por um vírus em uma pandemia. Talvez essa vida já estivesse sendo perdida enquanto faço mais uma lista, enquanto contabilizo e anoto cada detalhe para que tudo seja perfeito.

Talvez tudo volte ao normal. Talvez não.

Mas muitos de nós estamos obrigados a fazer uma pequena pausa do infinito assertivo de nossas vidas organizadas e produtivas. E talvez pensar em porque chegamos onde chegamos possa mostrar que somos mais do que os cargos que ocupamos, melhores do que aquilo que postamos e podemos fazer muito mais enquanto seres humanos do que enquanto trabalhadores.

E quando e se pudermos nos conectar com a nossa própria humanidade nessa pausa, quem sabe 9,3% dos ansiosos brasileiros possam respirar e viver exatamente o momento que está posto, deixando o amanhã para amanhã.

p.s.1 Sim, esse é texto de alguém privilegiado, que pode ficar em casa, ler Sartre e que pode fazer uma pausa. Mas esse alguém acredita que a pausa de quem pode pausar pode servir para alterar a lógica das coisas e criar, num futuro próximo, menos privilégios e mais igualdades.

Claro, pode foder com tudo também. E é mais provável que isso aconteça. Mas quem pode ser julgado por sonhar com mundo melhor e menos desigual, não é mesmo?

p.s.2: ando toda cheia de números; eles são a beleza pura e simples do que se pretende sólido, eterno e incontestável…até inventarem a estatística.

Dia do Meio Ambiente

e o que eu tenho a ver com isso?

Interessante como nós, humanos, temos o habito de falar de meio ambiente como se ele fosse uma coisa externa a nós, como se fosse apartado na nossa existência.

Acho que isso vem daquela ideia que se cultiva nas escolas, de mãe natureza. Ou talvez venha da nossa socialização cristã, que nos coloca no lugar de objeto dentro de um processo de criação que é externo a nós.

Talvez seja uma mistura dessas duas coisas, ou a soma de muitas outras ideias sobre o que é meio ambiente que precisam, claramente, de uma atualização.

Bem, pra começo de conversa, vamos então alinhar esse lugar em que nos colocamos.

Se meio ambiente é o conjunto das relações entre todas as coisas, vivas ou não, é certo dizer que meio ambiente é tudo. SIMPLESMENTE TUDO O QUE EXISTE!

Inclusive nós.

Pessoas, animais, arvores, prédios, postes, coronavirus, tomates, computadores. Tudo isso é meio ambiente.

Oras, então quando falamos em proteção ambiental, estamos falando essencialmente de criar condições para que a nossa própria vida seja possível.

Será que os negacionistas do clima têm algum fundamento para refutar o argumento de que meio ambiente é tudo o que existe e só por isso precisamos protege-lo?

Porque a bem da verdade, ainda que você não acredite que o clima está mudando por conta das ações do homem na Terra, ainda assim você consegue concordar comigo que enchentes, por exemplo, são fatos reais e concretos nas grandes cidades que afetam a vida humana, né?

São lados distantes de uma mesma discussão. Você pode achar que a catástrofe climática é um horizonte distante ou mesmo que ela jamais chegará.

Mas é fato inegável que viver numa sociedade complexa e mal estruturada tem consequências dramáticas num planeta que chove a beça em determinadas épocas do ano.

(em nome da democracia devo aceitar que existe gente que nega isso, mas sério?)

Bom, e daí que além das nossas ações individuais que repensem nosso consumo e a forma como nos relacionamos com o planeta, o que mais podemos fazer?

Se você é brasileiro, você foi instruído a vida inteira para ficar muito contrariado com o que eu vou dizer a seguir, mas eu vou dizer mesmo assim. O nome do blog já me justifica.

Bom, lá vai.

Precisamos urgentemente entender e aceitar que tudo o que nos diz respeito é POLÍTICO.

Prometo fazer um post só explicando exatamente o que quer dizer político, para você para de achar que isso só tem a ver com partidos políticos (e quem sabe, com sorte, ainda esquecer completamente essa história alienante de criminalização da política).

Tudo o que fazemos enquanto seres conviventes em sociedade é político, inclusive as escolhas de consumo que fazemos, se vamos comprar alimentos orgânicos ou não, se vamos reduzir consumo de carne ou se jogar na churrascada, não jogar lixo na rua, separar lixo reciclável, recusar embalagens plásticas, qual a qualidade dos moveis, dos eletrodomésticos, dos eletrônicos e das roupas que compramos.

isso é político e não tem a ver com partido político, né?

Muito bem. Daí a entender e aceitar isso passamos para o passo seguinte que é entender que existe uma ação individual que constrói, de verdade, um coletivo e define os rumos de quase tudo: NÃO ESCOLHER REPRESENTANTES QUE DEIXAM A BOIADA PASSAR.

Ricardo Salles desmata sua própria árvore de natal – revista piauí

Lamento dizer, mas se você, quando está fazendo uma escolha política ligada a um partido político e ao conceito mais comum de política que conhecemos, ou seja, escolhendo um representante nas eleições, precisamos entender que esse momento vai definir o que será construído no nosso espaço de existência enquanto seres pertencentes ao meio ambiente.

Em resumo, se você escolhe uma pessoa que sequer enxerga um povo originário como ser humano como representante, você está se comprometendo com um projeto que vai acabar com a sua própria vida.

Desculpe, mas não tem outra forma de dizer isso e, não, não estou sendo dramática.

Hoje, 05/06/2020, data em que destacamos a importância do meio ambiente para a continuidade da vida na Terra, o Brasil tem 1.473 mortos num intervalo de 24 horas.

Você pode achar que é uma coincidência ou que é uma associação equivocada. Mas não pode negar que estamos morrendo em meio a uma pandemia de um vírus que faz parte do meio ambiente também.

Enxergar o meio ambiente como algo externo à nós e a política como pertencente aos políticos nos trouxeram até aqui.

1,2 milhões de desempregados.

Mais de 1.400 mortos por dia.

Crescimento diário do desmatamento mesmo durante a pandemia.

Vírus mortal saindo dos cafundós do planeta para matar a gente.

Tá bem ruim né?

Então hoje eu só queria convidar vocês para se apropriar dos espaços que nos pertencem. Ninguém precisa ser cientista político nem ambientalista para saber o que é certo ou melhor para todos!

Vamos cuidar melhor do único planeta que temos porque, apesar dessa ideia super genial e atualizada de que resolver os problemas ambientais na Terra é conquistar o espaço e colonizar outros planetas, essa solução não é para nós, reles mortais sem capital. A privatização do espaço é para o 0,01% da população mundial que pode se dar ao luxo de sonhar em fugir da barbárie que o capital está deixando para nós.

Você acha que escolha política tem a ver com meio ambiente? Deixa sua opinião aqui nos comentários.

A gente se vê na próxima treta. Fiquem bem (se der).

Precisamos falar sobre tudo?

publicado originalmente no instagram em 07/10/2019

Tudo bem que nenhum homem seja uma ilha. Sentimos um profundo, urgente e inadiável desejo de pertencer, de sermos reconhecidos pelos nossos pares. Isso faz parte da substancia humana. As redes sociais são o instrumento de mão dupla da vida moderna, potencializando esse sentimento gregário ao mesmo tempo em que acalenta nosso coração carente de likes, em que estamos comentando, criticando, se posicionando, argumentando, repostando e reagindo, quase em tempo real, com tudo o que acontece não só na nossa rede, mas no mundo inteiro.

Hoje, zapeando pelo Youtube, vi um vídeo de um canal brasileiro (que tem mais de 2 milhões de inscritos) analisando as expressões faciais de Greta Thunberg enquanto ela discursava na ONU sobre o clima alguns dias atrás.

Não que eu me leve a sério, nem nada. Sou especialista em groselhas, inclusive. Mas já tem um tempo que eu tenho pensado sobre isso e querendo falar com vocês, por motivos de: expliquei lá no inicio hahahaha.

Como ativistinha da Estrela™ que sou, conheço e sigo muita gente que milita em várias pautas, com uma atuação forte na internet, principalmente. O que eu percebo em muitos perfis é que a nossa necessidade básica de socializar potencializada pela publicidade da internet acaba por criar uma demanda por comentar e ter opinião sobre tudo o que acontece.

Até aí, normal né? Os fiéis da porta da escola e aquela tia que fica na janela cuidando e comentando da vida alheia existem desde que o mundo é mundo, fenômeno que afeta particularmente as mães de recém-nascido, que pode ser classificado em fofoca ou palpite, conforme quem professa.

O que relaciona o vídeo sobre as expressões da Greta, a nossa vida online e a necessidade de pertencer nessa treta que eu estou querendo criar aqui é uma pergunta que ressoa há muito tempo na minha cabeça: Porque precisamos falar de tudo, ter opinião formada sobre tudo?

É claro que vocês já sabem que a resposta é: não precisamos. E eu, especialista em absolutamente nada, posso afirmar com convicção a vocês: a nossa necessidade de se relacionar potencializada pela possibilidade de nossa opinião formada sobre tudo estar disponível para validação do universo com acesso à internet cria uma falsa sensação de que somos mais importantes e necessários do que realmente somos. Ou cria discussões ou controvérsias absolutamente desnecessárias, para dizer o mínimo.

Por outro lado, existe um aspecto dessa realidade que é uma validação de discursos que só existem quando falamos em público, usando o discurso competente como palanque para interesses nem sempre tão genuínos quanto são certas pautas.

Sendo mais objetiva, existe a opinião dada sobre tudo que vai se justificar pura e simplesmente pelo meu ego inflado e pela minha necessidade de aprovação social e existe a opinião dada sobre tudo que constrói uma persona pré-aprovada socialmente pela audiência na internet e que é meramente discursiva.

Um ótimo exemplo disso é a militância feminista. Cresce como mato a quantidade de gente surfando na superfície das bandeiras de igualdade de gêneros, repostando, comentando e empunhando bandeiras apenas para criar uma história para o seu negócio. É homem fazendo coaching para empoderar mulheres, é mulher explorando selvagemente o trabalho informal de outras mulheres vendendo serviços humanizados e acolhimento feminino, é cerveja rosa para mulher, flor, bombom e descontos em cosméticos no famigerado dia das mulheres…

Todas essas ações que orbitam o feminismo e criam uma história ligada à luta pela igualdade de gêneros, mas que possuem intuito de acumulação de capital são problemáticas porque debate sobre a aliança entre o capitalismo e o patriarcado é um dos grandes temas no movimento.

Do mesmo modo temos a problemática do pink Money, do black Money e outros tantos movimentos sociais importantes que encontram mais degraus do que verdade e legitimação na expressão dessas opiniões e discursos pseudo-ativitas, que acabam por disseminar meias verdades e reforçar estereótipos e favorecendo a polarização e segregação das pessoas.

Com tudo isso rolando, como então podemos separar o joio do trigo — ou como separar os autênticos biscoiteiros de quem cria uma narrativa sofisticada para vender uma imagem, produto ou serviço? Será possível essa distinção? Será que ela é necessária?

Essas respostas deixo procês mores, porque eu só vim dar a minha não solicitada, inútil e inconclusiva opinião pra criar essa treta aqui.