Ócio nosso de cada dia: Google Arts & Culture

Semana passada foi uma daquelas complicadas na quarentena. Angustia, ansiedade, preocupações com saúde, com economia, com (des)governo, enfim…motivos para estar desalentada não faltam. E tenho certeza de que vocês também já passaram por semanas assim, talvez um dia ou outro com esse sentimento de que tudo está errado, perdido pra sempre.  E pra sair desse limbo, precisamos de inspiração, de estímulos, de um caminho que nos relembre de que, em todos os tempos da humanidade, nós produzimos coisas incríveis.

Eu amo artes plásticas e um dos meus grandes sonhos/metas é fazer um curso de história de arte que o Museu do Louvre oferece. Enquanto não aprendo francês e estou presa em casa, fico aqui viajando nas minhas obras favoritas com essa ferramenta do Google Arts & Culture, que Andre me mostrou e eu mostro pra vocês! 

Você clica em uma das cores da barra superior e uma coleção de obras é apresentada com a predominância da cor escolhida. Maravilhoso né?

Mas é ainda melhor: clicando em cima de cada foto, você acessar os detalhes técnicos de cada quadro, com o nome do artista, o ano da pintura, a quem ele pertence atualmente e uma história sobre ele. Está tudo em inglês, mas, é claro, sendo uma ferramenta do Google, você tem a opção de clicar e traduzir o conteúdo.

Impressionante né? Vai lá xeretar e depois me conta qual sua obra favorita. A minha é essa aí de cima, gosto que compartilho possivelmente com metade da humanidade.

Serviço gratuito e disponível disponível em Google Arts & Culture:  https://artsandculture.google.com/color?col=BLACK

Várias coisas

Entrei no banho com dois textos na cabeça.

Entenda, quando digo textos quero dizer duas ideias, dois caminhos. Às vezes só tem um, às vezes vários.

Talvez nem sejam textos, só vontade de esvaziar a cabeça de forma ordenada e linguisticamente aceitável. Tá parecendo o que para você?

Saio do banho correndo, passo um creme na cara (afinal já to mais no “enta” do que nos trinta) beijo o lindoh, que diz: tá inspirada?

Respondo: banho dá umas ideias. Vamos ver se é isso mesmo hahahaha

Parece que não, agora que eu sentei.

Pelo menos, não tô deixando o cursor piscando. Escrevi 103 palavras em 3 minutos. Bom número. Me digam onde posso anotar para concorrer a algum prêmio.

Fato é: talvez eu precisa escrever sobre o que eu tava pensando e não sobre um monte de merda sobre escrever.

Parece uma boa.

eu escrevo porque não sei o que penso até ler o que digo.❞ Flannery O’Connor

Pós Retrospectiva

Sou leitora compulsiva desde a adolescência. As panelinhas de amigos (patotinhas, no meu querido carioquês) nunca foram a minha praia e, considerando que eu nasci na era analógica, naquela época eu tinha poucos amigos e tempo de sobra para me dedicar a muitas leituras.

Quem me conhece sabe que eu sempre tenho um livro para indicar, e essa posição, evidentemente, me faz ter poucas opções e já ser muito crítica em relação à escrita alheia.

O que me salva sempre é o blog Por Onde Gabi For, por Gabi Galdino, por várias razões, mas destaco 3:

i. amo a Gabi com todo o meu coração e gosto de pensar que a recíproca é verdadeira;

ii. Gabi e eu temos basicamente o mesmo gosto literário e as críticas dela sempre fazem muito sentido para mim; e

iii. não é só mais um blog. É uma narrativa sobre coisas que funcionam pra minha vida, de comida e viagens que eu amo até cosméticos e os meus livros favoritos.

Como vocês já devem ter notado, o título é pós retrospectiva então evidentemente isso aqui não é sobre livros nem sobre o meu amor pela Gabi.

O que eu estou enrolando para contar para vocês (e vou enrolar mais um pouco) é que eu penso que o mundo e a vida são coisas absolutamente integradas, e de qualquer situação aleatória da vida, se você estiver ligada, você consegue fazer conexão com várias outras coisas.

E com isso, eu já introduzi para vocês o que eu queria dizer com pós retrospectiva: fiquei pensando sobre como eu sai de uma situação bem complexa com que me enfiei e da qual eu levei muito tempo para sair. Falei um pouco sobre essa situação no meu texto anterior, me sinto pronta para falar sobre onde as coisas se encontraram e como eu fui capaz de manter uma sanidade mínima para sair disso.

Não preciso dizer que “superar” relações que deram errado é um processo de várias etapas, principalmente num relacionamento tóxico. Desde o incomodo até você olhar para o que passou e dizer “estou bem” são fases e fases, recaídas e tristezas, incompreensões e impressões equivocadas.

353 palavras e nada né? Me desculpem, já deu pra notar que foco não é o meu forte.

E falando sobre as minhas crenças limitantes, isso me dá o gancho do que eu quero falar.

Quando eu disse na analise retrospectiva que não foi “do nada” que a minha situação mudou, eu decidi analisar quais foram os fatores que realmente se impuseram pelo meu caminho além de ter um marido que manda em mim e do fato de eu gostar de brincar de casinha, eles disseram (contém ironia).

E o primeiro fator, é claro, se conecta com a introdução ai cima com um monte de groselhas introspectivas sobre livros.

Quando a Gabi resenhou a tetralogia da Elena Ferrante eu me animei porque fazia tempo que não lia nenhuma sequência e eu amo sequencias — vide minha obsessão por HP e Crônicas de Gelo e Fogo.

O que eu nunca fui esperar foi a dimensão do impacto que a Lenu — personagem principal — ia me causar. Mandei inúmeras mensagens para a Gabi para falar do livro e o que mais esteve presente para mim foi o lugar onde Lenu e eu mais nos encontrávamos: no complexo de impostora.

“Apesar dos esforços contínuos para encontrar um lugar no mundo, Lenu nunca parece se sentir de fato confortável. Ela se torna reconhecida pelo seu trabalho literário, mas sempre enxerga poréns. Duvida de seus méritos. Acredita que é apenas o acaso. Acha que o que fez ainda não é suficiente. Está sempre questionando aquilo que foi capaz de botar no mundo. Essa leitura que ela faz de si própria acaba forçando a personagem a continuar sempre e sempre se debatendo com a vida; ela nunca descansa. E isso torna seus esforços tão frenéticos e intensos que a levam a vários dissabores.

Não por um acaso o livro faz bastante sucesso nos circuitos feministas. Além da Síndrome de Impostor na qual me reconheci tão facilmente, estão lá no livro outros aspectos bem singulares da sociabilidade feminina, como as relações mãe e filha, as violências silenciosas (e outras nem tanto) sofridas pelas personagens ao longo de toda tetralogia, a competição com sua amiga, e a tentativa de construir uma independência. A Síndrome de Impostor, no entanto, me pareceu tão significativa e determinante no rumo da vida da personagem que senti que precisava falar sobre ela, talvez para exorcizar também alguns dos meus demônios.”

trecho de Carla Soares, para o Mulheres que Escrevem

(Bem, se vocês nunca ouviram falar em complexo de impostora, parem tudo o que estão fazendo e vão pesquisar sobre isso agora. Se vocês não conhecem Elena Ferrante, leiam. Se vocês não têm o habito de ler, peloamordebeyonce, nunca é tarde para começar. )

Lenu se vê muitas vezes sufocada numa relação que seria, em tese, equilibrada e igual, mas a sua auto sabotagem e o perfil autocentrado de Lila, a amiga, desequilibram constantemente a relação, colocando até a carreira bem sucedida de Lenu em questão.

Vocês não podem imaginar o quanto eu me vi em Lenu, duvidando de mim mesma, questionando meus valores, meus planos, minha vida, minhas escolhas, minha capacidade e quantas vezes eu me peguei gritando, com ela e comigo todas as vezes em que a amizade febril esteve no topo das prioridades da vida dela e da minha.

Lenu e eu nos misturamos, nos confundimos, nos libertamos.

Essa tetralogia de livros me confrontou com a minha realidade. Com os meus medos, com os meus complexos, com tudo que eu queria ser e não era por minha única e exclusiva auto sabotagem.

É claro que esse descortinar não teve apenas esse ato. Teve tanta gente segurando a minha mão, me ouvindo gritar, chorar, surtar, duas, três, quatro, vinte vezes.

E esse pós retrospectivo se torna pra mim um objeto para expressar a minha gratidão por todas essas pessoas que acreditaram em mim mais do que eu, desde o primeiro olhar.

André, Luana, Gabi, Dani e Tay: vocês têm o melhor de mim.

Galera do Advogabilidade: eu vou morrer agradecendo o universo por ter nos unido com o timing mais perfeito.

Amanda, um dia eu te roubo pra mim e você vai ser minha sócia, pra gente brigar bastante e sair para tomar cerveja depois.

Bia e Layra, vocês, cada uma a seu modo, sabem onde estar na hora certa, sempre e isso é incrível. Gratidão pela fração de tempo e espaço que nos uniu.

Por fim, é importante dizer que nominar pessoas publicamente em agradecimento é se colocar presente no risco de esquecer de alguém importante. É isso que eu quero para o meu 2020 e desejo para o seu.

Corra riscos.

Assuma a responsabilidade por quem você é e pelo que você quer ser.

Peça desculpas quando fizer merda e se não tiver oportunidade de corrigir seus erros, nunca se esqueça que é só na matriz do erro que a gente aprende a acertar.

Muita gente vai ficar pelo caminho. Muita mesmo. Esteja preparada para perde-las.

Esteja também aberto a quem chega, ao novo e às possibilidades. A merda costuma ser quentinha mesmo mas vale se questionar se é isso mesmo, sempre e sempre.

Aos erros, o peso que eles merecem.

Aos acertos, comemoração sempre. Com vinho bom, comida boa, música boa e com abraços dos amigos.

A vida vale a pena. Não se economize.

de quando eu ainda não tinha me ouvido gritar com Lenu