Faltou tempo

Faltou tempo, mãe.

Quanto tempo era o certo, eu não sei. Mas não consigo parar de pensar no quanto tempo eu perdi, enquanto você ainda estava aqui.

Em tantos lugares sem saída, em becos desertos, escuros e vazios dentro de mim.

Onde a sua luz não me alcançava, mas bem que você tentou.

E tentou. E tentou. E tentou.

Às vezes penso que, em algum momento, você desistiu. Alguns dias, tenho certeza de que lutou por mim até o fim.

Talvez seus sentimentos de mãe fossem tão confusos quanto os meus de mãe do Henrique, mas decididamente não tão confusos como de filha.

Eu, sempre — e até agora — tão incompreendida, hoje tenho certeza de que foi você que sempre me entendeu.

Me deu todos os espaços, todas as chances e muito mais do que eu merecia.

Sei que não foi fácil. Sei que nada nunca foi fácil para você, nem eu.

Me pergunto todos os dias o que será que você pensava enquanto criava a gente. Será que mãe é tudo igual mesmo e você pensava o mesmo que eu penso?

Talvez sim. Provavelmente 3 vezes mais do que eu.

De tudo, o que eu mais penso é o que você me diria se estivesse aqui comigo em cada um dos momentos em que a sua falta cavuca o buraco que o fim da nossa vida juntas deixou em mim.

Certamente diria alguma coisa bem coaching motivacional e eu me irritaria, diria que você não entende como eu me sinto. E daqui a 10 anos, eu saberia que você me entendia sim, como eu sei agora.

A gente lá nos idos da virada do milênio

A verdade é tão clichê, tão frase motivacional…daquelas bem batidas. Vou ter que dizer aqui, para cumprir com meu papel social: eu só percebi o quanto eu precisava de você quando eu te perdi.

Só entendi a dimensão e a loucura desse amor e dessa falta, quando você não estava mais aqui.

Já te culpei muito, por tantas coisas. Já arrastei a minha corrente também.

Queria dizer, bem bonito, que daria tudo para te ter aqui comigo agora. Mas não é verdade.

Sei que somos feitos dos passos do nosso caminho, e isso eu aprendi com você.

Talvez a coisa que eu mais valorize nessa vida seja quem eu sou e onde estou agora, nesse momento. Tendo tudo o que eu sempre sonhei a vida inteira.

E eu só queria que você soubesse disso. Que você olhasse para isso tudo e sorrisse, sabendo desde sempre tudo o que eu só sei agora.

Dez anos é tempo demais para ficar sem você, mãe.

E esse é um saber que eu sempre vou saber mais que você.

Nossos dias todos nossos de Guarujá

Perdão contador de novas histórias

Vivemos sob a égide do desculpismo. Os bebes são ensinados, desde o passeio da pracinha na caixa de areia a pedir desculpas ao amiguinho por ter exagerado naquele carinho.

As crianças, obrigadas a pedir desculpas por fazer birra ao não querer beijar aquela tia velha com cheiro de mofo ft. canfora ft. água de colônia. (eca, como culpa-las?)

Os adultos, treinados desde cedo vão logo pedindo suas mal arrependidas e evidentemente irrefletidas desculpas porque isso resolve muita coisa.

Só que não.

Você já pediu desculpas só para encurtar uma situação? Aposto que sim. Eu também.

Eu, aliás, que vim de uma família de poucas palavras (poucas mesmo) nem desculpa se pediu. A gente vai consertando a merda com várias atitudes que julgados serem adequadas e gentis com aquela grandessíssima cara de merda de quem fez merda e está arrependido, mas é incapaz de pedir desculpas.

Tenho certeza de que vocês sabem do que eu to falando. Pela vida, topei com uma quantidade enorme de gente “desculpa” e gente que conserta merda à base da cara de merda e gestos de reconciliação. Todos válidos, diga-se de passagem, porque isso aqui não é um tribunal, né mores?

Mas eu queria mesmo puxar esse papo da minha família porque eu queria falar da minha avó. Ano passado ela ficou felizona com um panetone da lata de uma marca chique que eu só digo o nome se rolar um publi né? — mentira que eu não sou vendida pra capital nenhum — notaram meus neurônios discutindo?.

Aí o tal panetone famoso

Enfim, 7 meses depois minha vó se foi.

E não foi do nada. Nunca é, aliás. Vamos falar mais disso outra hora, tá?

Enfim. Minha vó morreu de tristeza, de desgosto, de mágoas que ela cultivou com afeto achando que a vida era mesma feita disso. Pera. Cultivou mágoa com afeto? Sim. Já disse que minha família é estranha? Se eu pareço normal (às vezes) é crédito dos Portes. ❤

Mas voltando à minha vó, ela era uma pessoa difícil. Qualquer parnaibano tem uma história de terror com ela pra contar. Chata, implicante, daquelas pessoas que tem prazer em constranger os outros sabe? Qual a melhor profissão para uma pessoa dessas?

Acertaram. Minha vó lidava com o público, dentro de um postinho de saúde – inclusive ela odiava e perseguia quem chamava de postinho. “É POSTO DE SAÚDE”, dizia a mal-humorada.

Pro meu eu adulta, minha vó era uma daquelas figuras engraçadas que toda cidade tem. Até charmosa.

Mas quando você é criança e não é a favorita muuuito pelo contrário, inclusive ter uma vó dessas é, na verdade, traumatizante. Não sei quanto da minha terapia eu devo ao fato de ter morado anos com a minha vó me infernizando (sério, leve isso à sério), ao ponto da minha mãe ficar sem falar com ela, tamanha a dimensão da ruindade da minha vó comigo.

B-e-m e-s-p-e-c-i-f-i-c-a-m-e-n-t-e-c-o-m-i-g-o.

(eu à esquerda, a vovó sorridente ao meio e minha sista Tata à direita)

Sei que vocês já estão associando a história ao desfecho pelo título. Mas não se iludam. Não temos uma cena de reconciliação novelística, sabe?

Um belo dia, depois que meu filho já tinha cerca de um ano, eu vi a importância de certos laços. Um laço que não necessariamente era de afeto, com camadas e camadas de mágoas e rancores. Mas o laço mais forte que faz as pessoas, ainda que distantes ou indiferentes, não precisarem explicar quem são.

É o laço do sangue. E não, queridos, não tô aqui para falar que família é mais importante que tudo não. Se a sua família te humilha, não te reconhece, viola quem você é na sua essência, mete o pé. Ninguém é obrigado a amar família não, Deus me livre. Não é isso, sabe?

Já diria um filho da minha vó: “parente é serpente”.

Tenho uma triangulação astrológica de aries, libra com câncer, e sério, essa é uma coisa que eu amo do fundo do meu coração nesse céu que me deram: eu simplesmente tenho uma profunda dificuldade em cultivar mágoas.

Deixo a água do tempo lavar, levanto e sigo em frente. Vamos ver que merda você é capaz de fazer para me magoar agora olha aí a lua em câncer.

Bem, o que aconteceu foi que eu encontrei a minha avó depois de uns 5 anos sem nenhum contato. Levei meu filho para ela conhecer. E ela estava lá, no castelo de solidão e indiferença que ela construiu para ela mesma.

E, sem pensar (por favor, acredite: eu só achava fofo meu filho ter uma bisavó), eu escolhi não proporcionar a ela o isolamento e a inadequação que ela sempre fez questão empurrar para mim. Percebi, adulta, que aquele não pertencimento que ela pretendeu — e talvez tenha conseguido em partes — incutir em mim era, na verdade, dela. Da história que ela não viveu. De quem ela deixou de ser. E do caminho que ela nunca encontrou de volta para ela mesma.

Quem me conhece de perto sabe o quanto eu fui próxima dessa minha malvada favorita nos últimos 10 anos, até ela falecer em julho de 2019. Com todos os demônios que ela achava que tinha, morreu dormindo, em silêncio e paz, depois do filho favorito lhe ajeitar as cobertas.

Escolher perdoar as mágoas com a minha avó talvez pareça pelas convenções sociais a coisa certa a fazer mesmo com todas as dificuldades. Sério gente, minha vó foi tão ruim para mim na infância que uma parte da minha família sempre ficou abismada com a nossa aproximação.

Mas o que eu queria dizer é que o perdão veio em silencio dos dois lados, com gestos de afeto e algumas caras de merda. Não foi difícil nem constrangedor nem sofrido. Apenas foi acontecendo, sem decisão, nem cena nem nada. Apenas compreendendo que não havia tempo a perder.

É claro que minha vó comentou varias vezes como nós brigávamos e nunca nos entendíamos na minha infância. Contava rindo isso para outros, comentando como eu era difícil haha. Para ela, eu é que tinha mudado. Bem…para mim, isso tinha vindo dela.

A verdade é que alguns perdões precisam de tempo para contar uma nova história. E essa minha nova história com a minha vó é agora uma história de saudades do que nós conseguimos viver.

Eu esperava ter mais tempo e não tive. Tinha muita vida que eu queria viver com você, vó! Muita cerveja pra gente tomar escondido, muita chamada de vídeo para falar de absolutamente nada e de absolutamente tudo. Muitos olhos para virar enquanto você implica reciprocamente com seu “neto favorito”.

Toda essa vida que tivemos é a nossa história nova, que o perdão silencioso e sincero deixou para nós.

Até breve.