Perdão contador de novas histórias

Vivemos sob a égide do desculpismo. Os bebes são ensinados, desde o passeio da pracinha na caixa de areia a pedir desculpas ao amiguinho por ter exagerado naquele carinho.

As crianças, obrigadas a pedir desculpas por fazer birra ao não querer beijar aquela tia velha com cheiro de mofo ft. canfora ft. água de colônia. (eca, como culpa-las?)

Os adultos, treinados desde cedo vão logo pedindo suas mal arrependidas e evidentemente irrefletidas desculpas porque isso resolve muita coisa.

Só que não.

Você já pediu desculpas só para encurtar uma situação? Aposto que sim. Eu também.

Eu, aliás, que vim de uma família de poucas palavras (poucas mesmo) nem desculpa se pediu. A gente vai consertando a merda com várias atitudes que julgados serem adequadas e gentis com aquela grandessíssima cara de merda de quem fez merda e está arrependido, mas é incapaz de pedir desculpas.

Tenho certeza de que vocês sabem do que eu to falando. Pela vida, topei com uma quantidade enorme de gente “desculpa” e gente que conserta merda à base da cara de merda e gestos de reconciliação. Todos válidos, diga-se de passagem, porque isso aqui não é um tribunal, né mores?

Mas eu queria mesmo puxar esse papo da minha família porque eu queria falar da minha avó. Ano passado ela ficou felizona com um panetone da lata de uma marca chique que eu só digo o nome se rolar um publi né? — mentira que eu não sou vendida pra capital nenhum — notaram meus neurônios discutindo?.

Aí o tal panetone famoso

Enfim, 7 meses depois minha vó se foi.

E não foi do nada. Nunca é, aliás. Vamos falar mais disso outra hora, tá?

Enfim. Minha vó morreu de tristeza, de desgosto, de mágoas que ela cultivou com afeto achando que a vida era mesma feita disso. Pera. Cultivou mágoa com afeto? Sim. Já disse que minha família é estranha? Se eu pareço normal (às vezes) é crédito dos Portes. ❤

Mas voltando à minha vó, ela era uma pessoa difícil. Qualquer parnaibano tem uma história de terror com ela pra contar. Chata, implicante, daquelas pessoas que tem prazer em constranger os outros sabe? Qual a melhor profissão para uma pessoa dessas?

Acertaram. Minha vó lidava com o público, dentro de um postinho de saúde – inclusive ela odiava e perseguia quem chamava de postinho. “É POSTO DE SAÚDE”, dizia a mal-humorada.

Pro meu eu adulta, minha vó era uma daquelas figuras engraçadas que toda cidade tem. Até charmosa.

Mas quando você é criança e não é a favorita muuuito pelo contrário, inclusive ter uma vó dessas é, na verdade, traumatizante. Não sei quanto da minha terapia eu devo ao fato de ter morado anos com a minha vó me infernizando (sério, leve isso à sério), ao ponto da minha mãe ficar sem falar com ela, tamanha a dimensão da ruindade da minha vó comigo.

B-e-m e-s-p-e-c-i-f-i-c-a-m-e-n-t-e-c-o-m-i-g-o.

(eu à esquerda, a vovó sorridente ao meio e minha sista Tata à direita)

Sei que vocês já estão associando a história ao desfecho pelo título. Mas não se iludam. Não temos uma cena de reconciliação novelística, sabe?

Um belo dia, depois que meu filho já tinha cerca de um ano, eu vi a importância de certos laços. Um laço que não necessariamente era de afeto, com camadas e camadas de mágoas e rancores. Mas o laço mais forte que faz as pessoas, ainda que distantes ou indiferentes, não precisarem explicar quem são.

É o laço do sangue. E não, queridos, não tô aqui para falar que família é mais importante que tudo não. Se a sua família te humilha, não te reconhece, viola quem você é na sua essência, mete o pé. Ninguém é obrigado a amar família não, Deus me livre. Não é isso, sabe?

Já diria um filho da minha vó: “parente é serpente”.

Tenho uma triangulação astrológica de aries, libra com câncer, e sério, essa é uma coisa que eu amo do fundo do meu coração nesse céu que me deram: eu simplesmente tenho uma profunda dificuldade em cultivar mágoas.

Deixo a água do tempo lavar, levanto e sigo em frente. Vamos ver que merda você é capaz de fazer para me magoar agora olha aí a lua em câncer.

Bem, o que aconteceu foi que eu encontrei a minha avó depois de uns 5 anos sem nenhum contato. Levei meu filho para ela conhecer. E ela estava lá, no castelo de solidão e indiferença que ela construiu para ela mesma.

E, sem pensar (por favor, acredite: eu só achava fofo meu filho ter uma bisavó), eu escolhi não proporcionar a ela o isolamento e a inadequação que ela sempre fez questão empurrar para mim. Percebi, adulta, que aquele não pertencimento que ela pretendeu — e talvez tenha conseguido em partes — incutir em mim era, na verdade, dela. Da história que ela não viveu. De quem ela deixou de ser. E do caminho que ela nunca encontrou de volta para ela mesma.

Quem me conhece de perto sabe o quanto eu fui próxima dessa minha malvada favorita nos últimos 10 anos, até ela falecer em julho de 2019. Com todos os demônios que ela achava que tinha, morreu dormindo, em silêncio e paz, depois do filho favorito lhe ajeitar as cobertas.

Escolher perdoar as mágoas com a minha avó talvez pareça pelas convenções sociais a coisa certa a fazer mesmo com todas as dificuldades. Sério gente, minha vó foi tão ruim para mim na infância que uma parte da minha família sempre ficou abismada com a nossa aproximação.

Mas o que eu queria dizer é que o perdão veio em silencio dos dois lados, com gestos de afeto e algumas caras de merda. Não foi difícil nem constrangedor nem sofrido. Apenas foi acontecendo, sem decisão, nem cena nem nada. Apenas compreendendo que não havia tempo a perder.

É claro que minha vó comentou varias vezes como nós brigávamos e nunca nos entendíamos na minha infância. Contava rindo isso para outros, comentando como eu era difícil haha. Para ela, eu é que tinha mudado. Bem…para mim, isso tinha vindo dela.

A verdade é que alguns perdões precisam de tempo para contar uma nova história. E essa minha nova história com a minha vó é agora uma história de saudades do que nós conseguimos viver.

Eu esperava ter mais tempo e não tive. Tinha muita vida que eu queria viver com você, vó! Muita cerveja pra gente tomar escondido, muita chamada de vídeo para falar de absolutamente nada e de absolutamente tudo. Muitos olhos para virar enquanto você implica reciprocamente com seu “neto favorito”.

Toda essa vida que tivemos é a nossa história nova, que o perdão silencioso e sincero deixou para nós.

Até breve.

Vulnerabilidade

publicado originalmente no instagram do coletivo Maternando Direito

https://www.instagram.com/maternandodireito/?hl=pt-br

A advocacia é uma das profissões mais romantizadas na maioria das sociedades ocidentais. Salto alto, saia lápis, caneta chique, cabelo super alinhado e grandes contratos comemorados com espumantes são alguns dos símbolos da nossa profissão que estão disponíveis em qualquer enlatado americano.

Isso alimenta não apenas a ideia de que a carreira jurídica é uma carreira por si só de sucesso e glamour como também a pressão social sobre os nossos ombros a cada vez que somos chamadas de doutoras e instadas a dar a nossa opinião/verdade absoluta sobre determinado assunto.

A realidade que vivemos é de mais de um milhão de profissionais tentando pagar a cachoeira de boletos que jorra para todos os brasileiros da casa da advogada à casa das professoras dos nossos filhos, da casa da caixa do supermercado à casa da servidora pública.

E nem só de pagar boletos vive a profissional de hoje: ela também quer viajar o mundo, quer fazer mestrado, quer sair para tomar um chopp com as amigas e ir ao teatro com o marido. Quer dar uma ótima educação aos filhos, falar uma segunda ou terceira língua, criar cachorros e gatos com todo amor e carinho e ainda escrever na internet!

Essa matriz de sucesso que a nossa sociedade impõe à um ritmo frenético, se pensarmos naquela velha ideia das coisas que precisamos fazer/ter até os 30 anos[1], aplicada ao nosso cotidiano de “mãe, advogada, as duas coisas ou coisa nenhuma” parece ser a formula certa da nossa angustia e ansiedade diária.

Na tentativa de diminuir essa angustia e ansiedade diária, e motivada a encontrar um propósito maior nessa loucura diária que a gente vive, há um ano eu, Ligia,iniciei uma transição bastante lenta e gradual na carreira, para sair de uma lógica de trabalho que não era a minha e que não me fazia bem por razões que não cabem nesse texto.

Isso significou trabalhar mais de 12 horas por dia, trabalhar em sábados, domingos, feriados e em horários pouco ortodoxos, tudo para dar conta de manter tocar simultaneamente uma parceria com um escritório e o projeto de ser meu próprio escritório. Eu me organizei para manter essa jornada hercúlea até o momento em que o meu projeto fosse mais significativo para mim do que o escritório dos outros e também pudesse conter de alguma forma a tal cachoeira de boletos.

Claro que, como vocês sabem bem, a vida não é uma linha horizontal esse plano tão bem elaborado acabou por encontrar um problema chamado “fator humano”: fui desligada sumariamente do escritório onde eu trabalhava após manifestar meu desejo de mudança naquela parceria. E eu sofri muito, por várias razões: não era o que eu tinha planejado, era uma parceria que ia além do profissional e a forma como tudo se deu foi realmente aterrador para mim. E aqui entra exatamente o assunto que eu quero conversar com vocês: a importância da exposição da nossa vulnerabilidade não apenas para quem pode nos dar apoio em situações difíceis como esta, mas também para com os nossos filhos.

A exposição da nossa vulnerabilidade mostra para os nossos filhos que somos pessoas também, e que medo, insegurança, tristeza e decepção são sentimentos que adultos e crianças experimentam na mesma medida. Ensina nossos filhos que os momentos difíceis são parte da vida de todo mundo e que o mundo plástico das redes sociais é uma minúscula fração daquilo que se vive no mundo real.

Para mim, viver essa experiencia tão intensa e compartilhar isso com meu filho, Henrique, fortaleceu nossa relação e forneceu a ele a oportunidade de falar sobre sentimentos que fazem parte da bagagem de vida que precisamos para seguir em frente quando tudo parece perdido.

Na sua família, qual a importância da vulnerabilidade? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe as nossas dicas sobre o que é preciso para escolher a coragem e não o conforto na cultura de hoje[2].

[1] A advogada Camila Masera falou sobre a famigerada lista do que fazer antes dos trinta num ótimo texto quando ela trintou.

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Acho que os últimos dias na década dos 20 fazem a gente refletir sobre a nossa identidade, personalidade e o rumo que as coisas andam tomando na vida, sabe? É tanta gente falando que os 30 são a melhor fase da vida da mulher, que a gente fica meio introspectiva antes de soprar as velinhas da nova década. Na semana pré-niver, lembro que digitei no Google “lista de coisas para se fazer antes dos 30”, pra saber se a pré-balzaquiana aqui estava levando uma vida que valesse realmente a pena. Choquei com a quantidade de sites e blogs que estampavam inúmeras listas das mais variadas coisas para se fazer antes do tal #trintei. Algumas listas continham coisas engraçadas e outras alguns itens inusitados que me fizeram adentrar numa viagem louca chamada “minha vida”. Lembrei, por exemplo, do meu último porre. Lembrei da minha primeira viagem sozinha. Da primeira vez que mandei meu telefone em um guardanapo. Da primeira vez que falei em público. Da última saída com as amigas pra dançar até o dia amanhecer. Da minha primeira conquista profissional e de muitos outros momentos que me fizeram abrir um sorrisão de gratidão, porque todas essas coisas, por mais “coisinhas” que possam ser, é que fizeram a minha vida realmente valer a pena, até agora. Daí, trintei e… nada de extraordinário aconteceu. Nenhum hormônio mirabolante explodiu dentro de mim, nenhuma ruga nova apareceu, a não ser aquelas poucas que já coleciono no meu rosto, com orgulho. A maturidade não vem com a idade, vem com as experiências. Se hoje estou na minha melhor fase, certamente, é por conta destas últimas. As vezes a gente fica colocando tanta expectativa no futuro, nos checks de listas, no próximo objetivo e na próxima meta, que esquecemos de quão delicioso é apreciar o PRESENTE e de agradecer por todas as coisas boas que o PASSADO já nos deu… tudo isso faz, sim, a vida valer a pena. Nós temos o HOJE. Aprecie sem moderação. • #sobredomingos #textosdacamilão

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[2] A call to courage, Bene Brown