Eu sou você

Publicado originalmente no Instagram em 24/10/2019

É triste fingir que não viveu, que não sofreu. A dor que não dói faltou ser inventada.

Há alguns meses eu desfiz uma parceria de anos e foi difícil para mim. Muito difícil. Mas mais difícil seria seguir em frente fingindo que ficou tudo bem porque simplesmente não ficou. O grande questionamento de quando as coisas desandam por completo sempre é: onde foi que eu errei.

Foram boas semanas de terapia (e a maturidade, que chega de mansinho mesmo) para entender que são muitas as verdades dessa pergunta. E que muitas delas não são minhas ou para mim.

Nesse caso, eu preferi acreditar que não poderia ser de outro jeito. Que a minha verdade é tão contraditória para o outro, que se torna impossível naquela realidade.

E, por outro lado, é também o que me basta. Pois a única coisa que eu procurei todo o tempo foi me encontrar, com todas as minhas confusões e contradições.

Spoiler: ainda não me encontrei.

Nem estou com pressa. E paciência a quem tiver alguma urgência em me rotular. Prefiro certamente andar para sempre em busca de mim do que me perder em um milhão de certezas e frases feitas que agradam apenas à audiência e nunca a mim.

Que não sou narrativa, nem discursiva, não sou influencer, não trago verdades (nem a pessoa amada de volta) não faço profecias, nem marco os caminhos pra seguir.

Eu sou você.

Cheia de questões incômodas, de silêncios constrangedores e contradições banais.

Quero ser livre e pertencer,

Quero ser semente e raiz,

Quero explodir com silêncio e

Quero mais e mais e mais e mais.

E sempre.

Tão comum e tão extraordinária.

Eu sou você.

eu, com 19 anos no RN, no tempo em que eu que tinha todas as certezas do mundo na cabeça sem saber que, na verdade, eu era apenas coragem em estado bruto

Vulnerabilidade

publicado originalmente no instagram do coletivo Maternando Direito

https://www.instagram.com/maternandodireito/?hl=pt-br

A advocacia é uma das profissões mais romantizadas na maioria das sociedades ocidentais. Salto alto, saia lápis, caneta chique, cabelo super alinhado e grandes contratos comemorados com espumantes são alguns dos símbolos da nossa profissão que estão disponíveis em qualquer enlatado americano.

Isso alimenta não apenas a ideia de que a carreira jurídica é uma carreira por si só de sucesso e glamour como também a pressão social sobre os nossos ombros a cada vez que somos chamadas de doutoras e instadas a dar a nossa opinião/verdade absoluta sobre determinado assunto.

A realidade que vivemos é de mais de um milhão de profissionais tentando pagar a cachoeira de boletos que jorra para todos os brasileiros da casa da advogada à casa das professoras dos nossos filhos, da casa da caixa do supermercado à casa da servidora pública.

E nem só de pagar boletos vive a profissional de hoje: ela também quer viajar o mundo, quer fazer mestrado, quer sair para tomar um chopp com as amigas e ir ao teatro com o marido. Quer dar uma ótima educação aos filhos, falar uma segunda ou terceira língua, criar cachorros e gatos com todo amor e carinho e ainda escrever na internet!

Essa matriz de sucesso que a nossa sociedade impõe à um ritmo frenético, se pensarmos naquela velha ideia das coisas que precisamos fazer/ter até os 30 anos[1], aplicada ao nosso cotidiano de “mãe, advogada, as duas coisas ou coisa nenhuma” parece ser a formula certa da nossa angustia e ansiedade diária.

Na tentativa de diminuir essa angustia e ansiedade diária, e motivada a encontrar um propósito maior nessa loucura diária que a gente vive, há um ano eu, Ligia,iniciei uma transição bastante lenta e gradual na carreira, para sair de uma lógica de trabalho que não era a minha e que não me fazia bem por razões que não cabem nesse texto.

Isso significou trabalhar mais de 12 horas por dia, trabalhar em sábados, domingos, feriados e em horários pouco ortodoxos, tudo para dar conta de manter tocar simultaneamente uma parceria com um escritório e o projeto de ser meu próprio escritório. Eu me organizei para manter essa jornada hercúlea até o momento em que o meu projeto fosse mais significativo para mim do que o escritório dos outros e também pudesse conter de alguma forma a tal cachoeira de boletos.

Claro que, como vocês sabem bem, a vida não é uma linha horizontal esse plano tão bem elaborado acabou por encontrar um problema chamado “fator humano”: fui desligada sumariamente do escritório onde eu trabalhava após manifestar meu desejo de mudança naquela parceria. E eu sofri muito, por várias razões: não era o que eu tinha planejado, era uma parceria que ia além do profissional e a forma como tudo se deu foi realmente aterrador para mim. E aqui entra exatamente o assunto que eu quero conversar com vocês: a importância da exposição da nossa vulnerabilidade não apenas para quem pode nos dar apoio em situações difíceis como esta, mas também para com os nossos filhos.

A exposição da nossa vulnerabilidade mostra para os nossos filhos que somos pessoas também, e que medo, insegurança, tristeza e decepção são sentimentos que adultos e crianças experimentam na mesma medida. Ensina nossos filhos que os momentos difíceis são parte da vida de todo mundo e que o mundo plástico das redes sociais é uma minúscula fração daquilo que se vive no mundo real.

Para mim, viver essa experiencia tão intensa e compartilhar isso com meu filho, Henrique, fortaleceu nossa relação e forneceu a ele a oportunidade de falar sobre sentimentos que fazem parte da bagagem de vida que precisamos para seguir em frente quando tudo parece perdido.

Na sua família, qual a importância da vulnerabilidade? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe as nossas dicas sobre o que é preciso para escolher a coragem e não o conforto na cultura de hoje[2].

[1] A advogada Camila Masera falou sobre a famigerada lista do que fazer antes dos trinta num ótimo texto quando ela trintou.

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Acho que os últimos dias na década dos 20 fazem a gente refletir sobre a nossa identidade, personalidade e o rumo que as coisas andam tomando na vida, sabe? É tanta gente falando que os 30 são a melhor fase da vida da mulher, que a gente fica meio introspectiva antes de soprar as velinhas da nova década. Na semana pré-niver, lembro que digitei no Google “lista de coisas para se fazer antes dos 30”, pra saber se a pré-balzaquiana aqui estava levando uma vida que valesse realmente a pena. Choquei com a quantidade de sites e blogs que estampavam inúmeras listas das mais variadas coisas para se fazer antes do tal #trintei. Algumas listas continham coisas engraçadas e outras alguns itens inusitados que me fizeram adentrar numa viagem louca chamada “minha vida”. Lembrei, por exemplo, do meu último porre. Lembrei da minha primeira viagem sozinha. Da primeira vez que mandei meu telefone em um guardanapo. Da primeira vez que falei em público. Da última saída com as amigas pra dançar até o dia amanhecer. Da minha primeira conquista profissional e de muitos outros momentos que me fizeram abrir um sorrisão de gratidão, porque todas essas coisas, por mais “coisinhas” que possam ser, é que fizeram a minha vida realmente valer a pena, até agora. Daí, trintei e… nada de extraordinário aconteceu. Nenhum hormônio mirabolante explodiu dentro de mim, nenhuma ruga nova apareceu, a não ser aquelas poucas que já coleciono no meu rosto, com orgulho. A maturidade não vem com a idade, vem com as experiências. Se hoje estou na minha melhor fase, certamente, é por conta destas últimas. As vezes a gente fica colocando tanta expectativa no futuro, nos checks de listas, no próximo objetivo e na próxima meta, que esquecemos de quão delicioso é apreciar o PRESENTE e de agradecer por todas as coisas boas que o PASSADO já nos deu… tudo isso faz, sim, a vida valer a pena. Nós temos o HOJE. Aprecie sem moderação. • #sobredomingos #textosdacamilão

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[2] A call to courage, Bene Brown

O poder do individuo

Publicado originalmente no Instagram em 14/10/2019

Comprou canudo de metal? Ah mas e o monte de plástico que vem de embalagem?

Luta pela igualdade social? Ah mas você então não pode usar Iphone…

Você faz doação para o Médico sem Fronteiras? A mas e as pessoas em situação de rua da Tijuca.

Todo mundo que, de algum modo, tenta colaborar minimamente para fazer do mundo um lugar melhor esbarra uma hora ou outra com algum desses questionamentos aí de cima.

Parece que é impossível ver o outro em uma ação coletiva sem que a culpa por não estarmos fazendo nada ou tanto imediatamente acione o modo sabotagem. Oras, como é possível que você esteja fazendo isso e eu não? Como eu não pensei nisso antes?

Bem, mas esse texto aqui não é pra falar sobre essa ideia boba de competição pelo politicamente correto, até porque ele está bem fora de moda ultimamente. O que eu queria falar mesmo com vocês é sobre o poder das ações pequenas, solitárias, silenciosas, quase invisíveis ações individuais.

Vivemos num mundo em que cada vez mais olhamos para as telas e menos para os outros. Eu mesma ando com meus óculos escuros e fone de ouvido a maior parte do tempo só pra evitar pessoas.

Comecei pós-graduação ao mesmo tempo em que uma grande amiga e me peguei conversando com ela sobre o quão bom é voltar a estudar o que amamos. O problema são as pessoas…puta merda, que preguiça de gente.

Porque gente é aquilo né? Existe, causa transtorno e não tem botão de pause, basicamente rs.

Gente que pensa diferente da gente, gente que não segue as nossas regras, gente que vive em cima do muro, que deixa as coisas pros outros decidirem, gente que anda pelo mundo e que só faz o que quer, que reage à tudo, que faz o que dá na telha, que dá palpite em tudo, que tem vontade própria, que só faz as coisas no seu próprio tempo e do seu próprio jeito.

E não sei vocês, mas os meus problemas nesse ponto são vários: moro com pessoas, trabalho com pessoas. Aonde quer que eu vá, adivinhe só: cheinho de pessoas. No metro, na aula de inglês, no fórum…enfim. Às vezes dá preguiça ter que explicar meu ser no mundo para pessoas dentro do ser no mundo delas.

E aí que esse texto chama “o poder do indivíduo e dos pequenos gestos” justamente porque, embora eu preferisse imensamente que o mundo fosse do meu jeito e atendesse aos meus desejos sem muitos transtornos, me parece que alguma lei da natureza me colocou num espaço com recursos limitados e com outros 7,7 bilhões de mini-universos.

Às vezes tenho a impressão de que jamais vou superar essa sacanagem do Grande Universo, porém a maior parte do tempo me parece que a minha melhor opção é encontrar um meio de sobreviver no meio dessa “galerinha”, intersecionando milhares de infinitos particulares. E por incrível que pareça, é no jeito de se relacionar com uma variedade imensa de interesses divergentes é que moram as transformações.

Então seguindo para algum rumo com essa fanfarronice toda do universo na nossa vida (e a minha aqui nessas linhas irrelevantes), o que eu pensei mesmo sobre tudo isso e que faz uma conexão desde a competição pelas melhores ações até a nossa obrigação de conviver da melhor forma no mundo é sobre a possibilidade de revolucionar com um simples gesto.

Um sorriso de compreensão para alguém que correu e conseguiu pegar o metro a tempo. Um elogio ao bom atendimento ou à boa comida que te foi servida no restaurante onde você almoça todo santo dia. Uma brincadeira boba com aquela criança pequena durante uma espera aborrecidíssima no consultório médico. Um copo d´água para o entregador.

Nenhuma dessas ações toma mais do que um minuto do seu tempo. Nenhuma delas custa dinheiro. Todas elas podem mudar o dia de alguém.

E a ideia de que é preciso ser um gesto grandioso para alterar a realidade em que vivemos é absolutamente contraditória com a nossa natureza essencialmente construtora de bem estar coletivo, em que o nosso próprio modo de viver e de deliberar juntos é o que faz de nós socialmente funcionais (oi Aristóteles, eu ensaiei mil jeitos de te mencionar essa semana).

Será que um conselho infalível para aquela amiga que veio desabafar ou um puta textão sobre a última grande cagada do presidente são mais revolucionários do que recolher silenciosamente uma sacola voadora que atravessa o seu caminho?

(acabei de googlar a palavra “cagada” para ver se achava uma mais interessante e o primeiro resultado que aparece é um vídeo intitulado “Mais uma cagada do Bolsonaro”, então quem sou eu pra quebrar a tradição, não é mesmo? Vou postar o print da tela pra vcs não acharem que eu falo mal do governo à toa)

pesquisa do google

Como vocês já sabem, meus mores, as respostas são por conta da freguesia. A mim, cabe só a pequena e inútil tarefa de criar a treta e, com alguma sorte, revolucionar o dia de alguém.

Precisamos falar sobre tudo?

publicado originalmente no instagram em 07/10/2019

Tudo bem que nenhum homem seja uma ilha. Sentimos um profundo, urgente e inadiável desejo de pertencer, de sermos reconhecidos pelos nossos pares. Isso faz parte da substancia humana. As redes sociais são o instrumento de mão dupla da vida moderna, potencializando esse sentimento gregário ao mesmo tempo em que acalenta nosso coração carente de likes, em que estamos comentando, criticando, se posicionando, argumentando, repostando e reagindo, quase em tempo real, com tudo o que acontece não só na nossa rede, mas no mundo inteiro.

Hoje, zapeando pelo Youtube, vi um vídeo de um canal brasileiro (que tem mais de 2 milhões de inscritos) analisando as expressões faciais de Greta Thunberg enquanto ela discursava na ONU sobre o clima alguns dias atrás.

Não que eu me leve a sério, nem nada. Sou especialista em groselhas, inclusive. Mas já tem um tempo que eu tenho pensado sobre isso e querendo falar com vocês, por motivos de: expliquei lá no inicio hahahaha.

Como ativistinha da Estrela™ que sou, conheço e sigo muita gente que milita em várias pautas, com uma atuação forte na internet, principalmente. O que eu percebo em muitos perfis é que a nossa necessidade básica de socializar potencializada pela publicidade da internet acaba por criar uma demanda por comentar e ter opinião sobre tudo o que acontece.

Até aí, normal né? Os fiéis da porta da escola e aquela tia que fica na janela cuidando e comentando da vida alheia existem desde que o mundo é mundo, fenômeno que afeta particularmente as mães de recém-nascido, que pode ser classificado em fofoca ou palpite, conforme quem professa.

O que relaciona o vídeo sobre as expressões da Greta, a nossa vida online e a necessidade de pertencer nessa treta que eu estou querendo criar aqui é uma pergunta que ressoa há muito tempo na minha cabeça: Porque precisamos falar de tudo, ter opinião formada sobre tudo?

É claro que vocês já sabem que a resposta é: não precisamos. E eu, especialista em absolutamente nada, posso afirmar com convicção a vocês: a nossa necessidade de se relacionar potencializada pela possibilidade de nossa opinião formada sobre tudo estar disponível para validação do universo com acesso à internet cria uma falsa sensação de que somos mais importantes e necessários do que realmente somos. Ou cria discussões ou controvérsias absolutamente desnecessárias, para dizer o mínimo.

Por outro lado, existe um aspecto dessa realidade que é uma validação de discursos que só existem quando falamos em público, usando o discurso competente como palanque para interesses nem sempre tão genuínos quanto são certas pautas.

Sendo mais objetiva, existe a opinião dada sobre tudo que vai se justificar pura e simplesmente pelo meu ego inflado e pela minha necessidade de aprovação social e existe a opinião dada sobre tudo que constrói uma persona pré-aprovada socialmente pela audiência na internet e que é meramente discursiva.

Um ótimo exemplo disso é a militância feminista. Cresce como mato a quantidade de gente surfando na superfície das bandeiras de igualdade de gêneros, repostando, comentando e empunhando bandeiras apenas para criar uma história para o seu negócio. É homem fazendo coaching para empoderar mulheres, é mulher explorando selvagemente o trabalho informal de outras mulheres vendendo serviços humanizados e acolhimento feminino, é cerveja rosa para mulher, flor, bombom e descontos em cosméticos no famigerado dia das mulheres…

Todas essas ações que orbitam o feminismo e criam uma história ligada à luta pela igualdade de gêneros, mas que possuem intuito de acumulação de capital são problemáticas porque debate sobre a aliança entre o capitalismo e o patriarcado é um dos grandes temas no movimento.

Do mesmo modo temos a problemática do pink Money, do black Money e outros tantos movimentos sociais importantes que encontram mais degraus do que verdade e legitimação na expressão dessas opiniões e discursos pseudo-ativitas, que acabam por disseminar meias verdades e reforçar estereótipos e favorecendo a polarização e segregação das pessoas.

Com tudo isso rolando, como então podemos separar o joio do trigo — ou como separar os autênticos biscoiteiros de quem cria uma narrativa sofisticada para vender uma imagem, produto ou serviço? Será possível essa distinção? Será que ela é necessária?

Essas respostas deixo procês mores, porque eu só vim dar a minha não solicitada, inútil e inconclusiva opinião pra criar essa treta aqui.