9,3%

Esse número acaba de me decepcionar.

Revista Exame, São Paulo — O Brasil sofre uma epidemia de ansiedade. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o País tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com o transtorno. O tabu em relação ao uso de medicamentos, entretanto, ainda permanece.

https://exame.com/ciencia/brasil-e-o-pais-mais-ansioso-do-mundo-segundo-a-oms/

Quando comecei a pensar sobre isso, na minha cabeça ele era 3x mais alto e eu ia dizer que na minha vida ele é ainda maior. Claro que eu vim pesquisar antes de escrever qualquer merda podem rir, já sabem que vai ter merda mesmo assim e descobri que subnotificação é uma coisa em moda no Brasil há muito tempo.

Digo isso porque minha rápida pesquisa no grande oráculo Google me informa que, muito muito muito muito abaixo do que eu esperava, apenas 9,3% dos brasileiros sofrem de ansiedade. E ele me parece assustadoramente baixo por que 95% das pessoas que eu conheço são ansiosas (segundo o instituto Liginha blablabla de pesquisa).

Mas ele faz bastante sentido quando me lembro que 90% dessas 95% pessoas que eu conheço que demonstram algum nível de ansiedade chama ansiedade de várias outras coisas.

Tem gente que adota o grande clássico das entrevistas de emprego dos anos 2000: “sou perfeccionista” rárárá gente, para né? Perfeccionista é exatamente a tradução do jargão corporativo para ansioso controlador. Fora que saiu de moda há já tem uns 10 anos.

Tem ansioso controlador que prefere uma saída mais na linha do softsilks, mais moderno e arrojado, se definindo como organizado e planejador, porque a gente precisa estar preparado, né?

Alguma coisa pode acontecer, alguma coisa vai acontecer, alguma tem que acontecer. E vai. Ou não.

A vida, na real, não tem uma lógica, saca?

Mas aqui a ansiedade é que pelo menos estamos preparados.

Bem, em abril de 2020, é bom estar preparado mesmo. Inclusive para o apocalipse zumbi, que tá batendo na nossa porta. E aí, minha gente…é que quem tem ansiedade perde o sono mesmo.

“é tarde, é tarde, é tarde, é tarde, é tarde”, diz o coelho branco, sempre atrasado para o que nunca sabemos.

Claro que eu não sou ansiosa, como 90,7% dos brasileiros, ou claro que sou sim, inadvertidamente ansiosa, assim como 95% das pessoas que eu conheço e que fingem que não.

(a não ser para aquelas características que poderiam pegar bem em uma entrevista de emprego, mas eu dizer isso?  Bem, eu não faço entrevistas de emprego porque eu não quero um emprego rs. E depois, alguém consegue me imaginar dizendo: “sou perfeccionista”? Definitivamente não.

Aliás, eu sou exatamente o tipo de pessoa que ri de quem é perfeccionista e eu não vou citar nomes porque ainda não superei esse dilema ético de mencionar pessoas assim publicamente sem autorização. Mas você sabe que eu to falando de você, né? To rindo mas é com respeito, juro.)

Enfim, voltando aqui pra coisa da ansiedade, eu tive vários altos e baixos no começo da quarentena. Não que eles tenham passado totalmente, mas diminuíram muito quando eu passei a estar apenas no agora. Vivendo um dia de cada vez, no melhor estilo diário de um detendo (salve Racionais MC´s).

Falando sério, eu já vinha bem ansiosa desde o impeachment (da Dilma, calma, torcedores) por conta da minha posição política e de tudo o que estava sendo desenhado ali.

É bem agoniante acompanhar política, mas infelizmente eu sou viciada nisso. E agora, em 2020, com tudo o que está acontecendo enquanto eu me torno uma pequena analista social, é incrível como cada vez mais é possível compreender nosso papel histórico nesse tipo de acontecimento.

E, verdade seja dita, em que pese minha ligeira aversão por academicismos, é impressionante o quão mais fácil a vida se torna quando você conhece Sartre e Norbert Elias (e sim, eu consegui citar os dois na mesma frase embora numa referência que talvez só faça sentido na minha cabeça, se é que me entendem hahahaha).

Estou falando desses dois e esse monte de groselhas querendo dizer, na verdade, é que a ansiedade é montada sobre camadas de gatilhos infinitos, que criamos dentro da nossa cabeça e nos quais tropeçamos o tempo inteiro.

E desarmar esses gatilhos é entender de onde eles vêm. Terapia ajuda, às vezes remédio também. Não subestimar distúrbios psicológicos, o autoconhecimento e a busca por ajuda profissional ajudam muito.

Se voltar para dentro de si é um tabu, ficar em silencio é um tabu. Não ter nada para dizer, não querer responder whatsapp, demorar para ler os e-mails, não ser superprodutivo com tanto “tempo livre” é proibido.

Impressionante como o culto ao trabalho, com os status produtivos e assertivos, seguem como a pedra angular da vida da maioria das pessoas. Impressionante como ser trabalhador é uma puta elogio, colocado em um pedestal intocável e inquestionável do dever ser, enquanto aguardamos tudo “voltar ao normal”.

trabalhador brasileiro trabalha igual burro e não ganha dinheiroooooooooooooooooooooooooooooo Seu Jorge entendeu porém não.

Enquanto deixamos todas as reflexões para alguém fazer por nós.

Enquanto deixamos outros decidirem por nós.

Enquanto deixamos a vida escapar por entre os dedos (lavados com água e sabão, cheinhos de alquigel).

Talvez essa vida não se perca por um vírus em uma pandemia. Talvez essa vida já estivesse sendo perdida enquanto faço mais uma lista, enquanto contabilizo e anoto cada detalhe para que tudo seja perfeito.

Talvez tudo volte ao normal. Talvez não.

Mas muitos de nós estamos obrigados a fazer uma pequena pausa do infinito assertivo de nossas vidas organizadas e produtivas. E talvez pensar em porque chegamos onde chegamos possa mostrar que somos mais do que os cargos que ocupamos, melhores do que aquilo que postamos e podemos fazer muito mais enquanto seres humanos do que enquanto trabalhadores.

E quando e se pudermos nos conectar com a nossa própria humanidade nessa pausa, quem sabe 9,3% dos ansiosos brasileiros possam respirar e viver exatamente o momento que está posto, deixando o amanhã para amanhã.

p.s.1 Sim, esse é texto de alguém privilegiado, que pode ficar em casa, ler Sartre e que pode fazer uma pausa. Mas esse alguém acredita que a pausa de quem pode pausar pode servir para alterar a lógica das coisas e criar, num futuro próximo, menos privilégios e mais igualdades.

Claro, pode foder com tudo também. E é mais provável que isso aconteça. Mas quem pode ser julgado por sonhar com mundo melhor e menos desigual, não é mesmo?

p.s.2: ando toda cheia de números; eles são a beleza pura e simples do que se pretende sólido, eterno e incontestável…até inventarem a estatística.

Ócio nosso de cada dia: Google Arts & Culture

Semana passada foi uma daquelas complicadas na quarentena. Angustia, ansiedade, preocupações com saúde, com economia, com (des)governo, enfim…motivos para estar desalentada não faltam. E tenho certeza de que vocês também já passaram por semanas assim, talvez um dia ou outro com esse sentimento de que tudo está errado, perdido pra sempre.  E pra sair desse limbo, precisamos de inspiração, de estímulos, de um caminho que nos relembre de que, em todos os tempos da humanidade, nós produzimos coisas incríveis.

Eu amo artes plásticas e um dos meus grandes sonhos/metas é fazer um curso de história de arte que o Museu do Louvre oferece. Enquanto não aprendo francês e estou presa em casa, fico aqui viajando nas minhas obras favoritas com essa ferramenta do Google Arts & Culture, que Andre me mostrou e eu mostro pra vocês! 

Você clica em uma das cores da barra superior e uma coleção de obras é apresentada com a predominância da cor escolhida. Maravilhoso né?

Mas é ainda melhor: clicando em cima de cada foto, você acessar os detalhes técnicos de cada quadro, com o nome do artista, o ano da pintura, a quem ele pertence atualmente e uma história sobre ele. Está tudo em inglês, mas, é claro, sendo uma ferramenta do Google, você tem a opção de clicar e traduzir o conteúdo.

Impressionante né? Vai lá xeretar e depois me conta qual sua obra favorita. A minha é essa aí de cima, gosto que compartilho possivelmente com metade da humanidade.

Serviço gratuito e disponível disponível em Google Arts & Culture:  https://artsandculture.google.com/color?col=BLACK

Dia do Meio Ambiente

e o que eu tenho a ver com isso?

Interessante como nós, humanos, temos o habito de falar de meio ambiente como se ele fosse uma coisa externa a nós, como se fosse apartado na nossa existência.

Acho que isso vem daquela ideia que se cultiva nas escolas, de mãe natureza. Ou talvez venha da nossa socialização cristã, que nos coloca no lugar de objeto dentro de um processo de criação que é externo a nós.

Talvez seja uma mistura dessas duas coisas, ou a soma de muitas outras ideias sobre o que é meio ambiente que precisam, claramente, de uma atualização.

Bem, pra começo de conversa, vamos então alinhar esse lugar em que nos colocamos.

Se meio ambiente é o conjunto das relações entre todas as coisas, vivas ou não, é certo dizer que meio ambiente é tudo. SIMPLESMENTE TUDO O QUE EXISTE!

Inclusive nós.

Pessoas, animais, arvores, prédios, postes, coronavirus, tomates, computadores. Tudo isso é meio ambiente.

Oras, então quando falamos em proteção ambiental, estamos falando essencialmente de criar condições para que a nossa própria vida seja possível.

Será que os negacionistas do clima têm algum fundamento para refutar o argumento de que meio ambiente é tudo o que existe e só por isso precisamos protege-lo?

Porque a bem da verdade, ainda que você não acredite que o clima está mudando por conta das ações do homem na Terra, ainda assim você consegue concordar comigo que enchentes, por exemplo, são fatos reais e concretos nas grandes cidades que afetam a vida humana, né?

São lados distantes de uma mesma discussão. Você pode achar que a catástrofe climática é um horizonte distante ou mesmo que ela jamais chegará.

Mas é fato inegável que viver numa sociedade complexa e mal estruturada tem consequências dramáticas num planeta que chove a beça em determinadas épocas do ano.

(em nome da democracia devo aceitar que existe gente que nega isso, mas sério?)

Bom, e daí que além das nossas ações individuais que repensem nosso consumo e a forma como nos relacionamos com o planeta, o que mais podemos fazer?

Se você é brasileiro, você foi instruído a vida inteira para ficar muito contrariado com o que eu vou dizer a seguir, mas eu vou dizer mesmo assim. O nome do blog já me justifica.

Bom, lá vai.

Precisamos urgentemente entender e aceitar que tudo o que nos diz respeito é POLÍTICO.

Prometo fazer um post só explicando exatamente o que quer dizer político, para você para de achar que isso só tem a ver com partidos políticos (e quem sabe, com sorte, ainda esquecer completamente essa história alienante de criminalização da política).

Tudo o que fazemos enquanto seres conviventes em sociedade é político, inclusive as escolhas de consumo que fazemos, se vamos comprar alimentos orgânicos ou não, se vamos reduzir consumo de carne ou se jogar na churrascada, não jogar lixo na rua, separar lixo reciclável, recusar embalagens plásticas, qual a qualidade dos moveis, dos eletrodomésticos, dos eletrônicos e das roupas que compramos.

isso é político e não tem a ver com partido político, né?

Muito bem. Daí a entender e aceitar isso passamos para o passo seguinte que é entender que existe uma ação individual que constrói, de verdade, um coletivo e define os rumos de quase tudo: NÃO ESCOLHER REPRESENTANTES QUE DEIXAM A BOIADA PASSAR.

Ricardo Salles desmata sua própria árvore de natal – revista piauí

Lamento dizer, mas se você, quando está fazendo uma escolha política ligada a um partido político e ao conceito mais comum de política que conhecemos, ou seja, escolhendo um representante nas eleições, precisamos entender que esse momento vai definir o que será construído no nosso espaço de existência enquanto seres pertencentes ao meio ambiente.

Em resumo, se você escolhe uma pessoa que sequer enxerga um povo originário como ser humano como representante, você está se comprometendo com um projeto que vai acabar com a sua própria vida.

Desculpe, mas não tem outra forma de dizer isso e, não, não estou sendo dramática.

Hoje, 05/06/2020, data em que destacamos a importância do meio ambiente para a continuidade da vida na Terra, o Brasil tem 1.473 mortos num intervalo de 24 horas.

Você pode achar que é uma coincidência ou que é uma associação equivocada. Mas não pode negar que estamos morrendo em meio a uma pandemia de um vírus que faz parte do meio ambiente também.

Enxergar o meio ambiente como algo externo à nós e a política como pertencente aos políticos nos trouxeram até aqui.

1,2 milhões de desempregados.

Mais de 1.400 mortos por dia.

Crescimento diário do desmatamento mesmo durante a pandemia.

Vírus mortal saindo dos cafundós do planeta para matar a gente.

Tá bem ruim né?

Então hoje eu só queria convidar vocês para se apropriar dos espaços que nos pertencem. Ninguém precisa ser cientista político nem ambientalista para saber o que é certo ou melhor para todos!

Vamos cuidar melhor do único planeta que temos porque, apesar dessa ideia super genial e atualizada de que resolver os problemas ambientais na Terra é conquistar o espaço e colonizar outros planetas, essa solução não é para nós, reles mortais sem capital. A privatização do espaço é para o 0,01% da população mundial que pode se dar ao luxo de sonhar em fugir da barbárie que o capital está deixando para nós.

Você acha que escolha política tem a ver com meio ambiente? Deixa sua opinião aqui nos comentários.

A gente se vê na próxima treta. Fiquem bem (se der).

Contratos em tempos de pandemia e crise econômica

(e sim, eu avisei que esse blog é uma salada de coisas)

Em tempos de crise social e econômica, como olhar para questões contratuais que impactam nosso dia-a-dia, que foi completamente alterado pelas recomendações severas de distanciamento social?

Como lidar com a redução na renda que não comporta mais os acordos firmados numa rotina que está suspensa?

Mensalidades escolares, alugueres, transporte escolar, academia, financiamentos, parcelas e mais parcelas de diversos contratos fazem parte do cotidiano da maioria das famílias, por isso há muito conteúdo disponível sobre os direitos dos contratantes quanto à cancelamento e/ou rescisão desses contratos.

Porém, devemos nos lembrar que estamos em meio a uma situação excepcional e todos os lados podem ter razão. Por isso, se colocar no lugar do outro e buscar o diálogo para reequilibrar o contrato firmado é cumprir com o dever de solidariedade não apenas contratual, mas constitucional a que todos estamos sujeitos no Estado Democrático de Direito em que vivemos.

Os tempos que se vizinham serão, certamente, difíceis para todos e precisamos reaprender a nos relacionar com o outro, deixando o paradigma adversarial e de busca de vantagens de lado e buscando o equilíbrio e o bem viver para todos.

Nesse sentido, é importante que nos voltemos aos princípios que regem as relações de consumo, nos lembrando que o Código de Defesa do Consumidor é uma norma de ordem publica e de interesse social.

Isso significa que todas as relações de consumo, embora tenham em seu conteúdo a primazia do direito privado, têm forte interesse público, não podendo a autonomia da vontade se sobrepor às peculiaridades e o natural desequilíbrio que pautam, via de regra, essas relações.

Por outro lado, os objetivos consagrados na política nacional de proteção ao consumidor, para além da proteção e respeito à direitos básicos dos consumidores, orientam que a transparência e harmonia das relações de consumo também deve ser observada pelas partes e pelo poder público.

Tal aspecto também é ressaltado pelo principio consumerista da harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo. Com isso, tem-se que os direitos do consumidor devem ser observados e alinhados com outros aspectos do ordenamento jurídico, como a função social da livre iniciativa e a dignidade da pessoa humana enquanto fundamentos de nossa Republica no objetivo de construir uma sociedade livre, justa e solidária.

Em um sentido mais prático, significa dizer que, em um momento social e econômico tão delicado, devemos nos lembrar que somos parte de um todo, cada um fazendo sua parte dentro do delicado equilíbrio do tecido social.

Contratos em geral (consumo ou aluguel)

Tendo essas premissas em mente, alguns exemplos acerca das possibilidades de negociação de contratos em geral são:

  • Adiamento de mensalidades em 60/90 dias;
  • Parcelamento de mensalidades adiadas diluídas nas parcelas futuras;
  • Reparcelamento da anuidade;
  • Crédito futuro;

Lembrando que no caso das escolas por exemplo, podem alterar a forma como o serviço vai ser prestado, sendo obrigadas a observara as recomendações das autoridades governamentais e a lei de diretrizes e bases. Isso significa que elas podem estabelecer novas datas para as aulas e disponibilizar aulas online.  E com o serviço sendo prestado, nenhum desconto seria devido, lembrando sempre que todas as relações estão sempre sujeitas à análise individual, e todas as peculiaridades de cada parte sendo considerada no todo, não se devendo dispensar o auxílio profissional de confiança.

Ainda usando como exemplo a prestação de serviço educacionais, devemos pensar que, dentro dessas relações pode haver determinadas obrigações que são de cuidado direto, que demandam atenção presencial, como na educação infantil, nas creches ou nos períodos chamados “integrais”.

Nestes casos, é preciso ponderar que a escola não está funcionando, mas certos custos para que ela volte a funcionar do mesmo modo são mantidos, como salários e aluguel. Pode ser o caso de se negociar então um eventual o abatimento de valores referentes à alimentação, atividades extracurriculares, ao período integral ou um crédito futuro referente à esses valores.

Em relação aos contratos de aluguel, todas as partes estão cientes do agravamento da situação que estamos passando, com muitas famílias perdendo parte da renda ou reduções drásticas de salários no orçamento familiar.

É importante lembrarmos que muitos locadores também tem nos rendimentos dos contratos de aluguel a fonte de renda de sua família e por isso todos devem ter em mente esse delicado equilíbrio.

Um bom caminho para esse tipo de conflito sempre é o diálogo. Entrando em contato com o proprietário do imóvel ou com o administrador expondo de forma transparente e sincera a alteração da situação econômica abre espaço para uma negociação de redução do valor mensal de forma que todos dividam o peso, de forma justa e solidária, do momento que vivemos.

Em qualquer uma das opções acima, é importantíssimo que o acordo seja formalizado e todas as novas condições feitas por escrito, inclusive por e-mail ou WhatsApp devido as circunstancias especificas de distanciamento social atuais.

Financiamentos bancários

No caso dos financiamentos bancários, já existe uma solução mais formal proposta por Resolução do Banco Central, por meio do Conselho Monetário Nacional que flexibilizou algumas regras às instituições financeiras, facultando aos bancos o congelamento de financiamentos por até 60 dias.

Assim, os clientes bancários que possuírem financiamento ativo e estiverem adimplentes, poderão, por meio de canais eletrônicos disponibilizados pelas instituições, requerer o congelamento de até duas parcelas com a mesma taxa de juros do contrato sem pagamento de qualquer multa, ficando o valor correspondente à esses dois meses diluídos no saldo devedor total.

Ferramenta da Caixa Econômica

Até o momento, as orientações passadas pelas instituições que aderiram à possibilidade de parcelamento são as seguintes:

  • Caixa: o pedido é efetivado em 48 retroativas a data do pedido, podendo o requerimento ser feito via aplicativo Habitação Caixa, pelo WhatsApp, ou pelos tele serviços do banco;
  • Itaú:  clientes interessados em aderir devem entrar em contato com as centrais de atendimento;
  • Santander: o banco disponibilizou um hotsite para orientações e adesão. Também ampliou os limites do cartão de crédito de forma automática em 10% para os clientes adimplentes;
  • Bradesco: o requerimento pode ser feito através de formulário disponível no internet banking e enviado eletronicamente para o e-mail da agencia do cliente.;  

Contratos de trabalho

Certamente são os contratos mais polêmicos e delicados a serem analisados em meio à crise. Existem diversas medidas emergenciais sendo tomadas e anunciadas diariamente pelas autoridades, razão pela qual se deve agir com o máximo de cautela principalmente nesses primeiros momentos tão críticos do isolamento social recomendado.

Desenvolvi em parceria com duas colegas advogadas Mariangela Albuquerque e Nubia Martins um cartilha que explica em detalhes todas as alterações.

(clique aqui para baixar a Cartilha de Práticas Trabalhistas)

Observando as regras ordinárias em vigor, conjuntamente com as normas e princípios constitucionais, é seguro afirmar que para os trabalhadores que prestam serviços por meio de CNPJ (os chamados “pj´s” e MEI) uma opção para minimizar os impactos do distanciamento social pode ser pausar a prestação de serviços agora e trabalhar com compensação depois, mantendo-se a remuneração contratada.

Nos contratos formais, regidos pela CLT, opções podem ser pensadas no sentido de concessão de férias coletivas, compensação de jornada ou, nos casos possíveis, a colocação dos trabalhadores em regime de teletrabalho, o famoso home office.

Importante ainda destacar que o Tribunal Superior do Trabalho está atento ao volume de demandas judiciais que certamente surgirão nos próximos meses e prepara uma recomendação para disponibilização em massa de sistemas de mediação e conciliação entre empresas, sindicados e trabalhadores durante a pandemia para solução dos conflitos.

É, certamente, um momento que demanda paciência e tranquilidade social, em especial nos contratos, vez que todos serão severamente impactados. O que devemos ter sempre em mente é que “somos todos ondas do mesmo mar[1]” e que a ação de cada um tem reflexos na vida de outras pessoas.

Como você tem resolvido seus problemas por aí? Me conta por aqui nos comentários.

Fiquem seguros, fiquem em casa.


[1] Provérbio popular atribuído aos chineses.

233.715 Biancas

Quando digo que nada vem do nada, é porque acabei de pensar que socializar, viver, conviver traz uma materialização do que a gente tá pensando para a realidade — louco isso, né?

carinha de quem vai dar uma viajada daquelas

Porém não inédito. Quando eu não estiver obcecada em escrever sobre outras coisas, poderei pesquisar quem pensou isso. Possivelmente Freud ou algum desses carinhas psi legais. Eu gosto, mas esqueço. (Desculpem)

Enfim, eu queria começar dizendo que eu queria escrever um texto sobre o que é ser mãe, na real, dias e dias e dias depois de me encontrar om a Bianca (me pego sempre pensando se é certo mencionar as conversas que tive com as pessoas. Vou só dizer Bianca, porque afinal, quantas Biancas tem no mundo?

Legal, acabei de descobrir que o IBGE tem um aplicativo de nomes.

233.715 Biancas no Brasil.

SP tem 1 Bianca a cada 182,53 pessoas.

Bem, encontrei Bianca, dentre as 24.337 Biancas do estado do Rio de Janeiro (facilitei para você?) e nos encontramos num argumento: eu não gosto de ser mãe.

uau, parei para pesquisar meu nome nesse treco e imaginem que só tem 49.020 Ligias no Brasil. Ai, gente…juro que já volto.

Mila, tem 4701 pessoas com o seu nome!

Thais, sei que você é ciumenta, mas temos outras 169.620 Thais — com agá — no Brasil. Xô ver sem agá… mais 202.516 pessoas. Ainda bem que os outros dois irmãos não tem instagram ou paciência de ler as merdas que eu escrevo.

Chega, agora é sério. Tô com sono…não vai sair o tal texto sobre a função mãe. Desculpem de novo. Uma hora acaba saindo.

Dica — e nota mental — as ideias do banho só são geniais no banho, principalmente se você toma banho antes de deitar.

É isso. Boa noite, mores.

Faltou tempo

Faltou tempo, mãe.

Quanto tempo era o certo, eu não sei. Mas não consigo parar de pensar no quanto tempo eu perdi, enquanto você ainda estava aqui.

Em tantos lugares sem saída, em becos desertos, escuros e vazios dentro de mim.

Onde a sua luz não me alcançava, mas bem que você tentou.

E tentou. E tentou. E tentou.

Às vezes penso que, em algum momento, você desistiu. Alguns dias, tenho certeza de que lutou por mim até o fim.

Talvez seus sentimentos de mãe fossem tão confusos quanto os meus de mãe do Henrique, mas decididamente não tão confusos como de filha.

Eu, sempre — e até agora — tão incompreendida, hoje tenho certeza de que foi você que sempre me entendeu.

Me deu todos os espaços, todas as chances e muito mais do que eu merecia.

Sei que não foi fácil. Sei que nada nunca foi fácil para você, nem eu.

Me pergunto todos os dias o que será que você pensava enquanto criava a gente. Será que mãe é tudo igual mesmo e você pensava o mesmo que eu penso?

Talvez sim. Provavelmente 3 vezes mais do que eu.

De tudo, o que eu mais penso é o que você me diria se estivesse aqui comigo em cada um dos momentos em que a sua falta cavuca o buraco que o fim da nossa vida juntas deixou em mim.

Certamente diria alguma coisa bem coaching motivacional e eu me irritaria, diria que você não entende como eu me sinto. E daqui a 10 anos, eu saberia que você me entendia sim, como eu sei agora.

A gente lá nos idos da virada do milênio

A verdade é tão clichê, tão frase motivacional…daquelas bem batidas. Vou ter que dizer aqui, para cumprir com meu papel social: eu só percebi o quanto eu precisava de você quando eu te perdi.

Só entendi a dimensão e a loucura desse amor e dessa falta, quando você não estava mais aqui.

Já te culpei muito, por tantas coisas. Já arrastei a minha corrente também.

Queria dizer, bem bonito, que daria tudo para te ter aqui comigo agora. Mas não é verdade.

Sei que somos feitos dos passos do nosso caminho, e isso eu aprendi com você.

Talvez a coisa que eu mais valorize nessa vida seja quem eu sou e onde estou agora, nesse momento. Tendo tudo o que eu sempre sonhei a vida inteira.

E eu só queria que você soubesse disso. Que você olhasse para isso tudo e sorrisse, sabendo desde sempre tudo o que eu só sei agora.

Dez anos é tempo demais para ficar sem você, mãe.

E esse é um saber que eu sempre vou saber mais que você.

Nossos dias todos nossos de Guarujá

Várias coisas

Entrei no banho com dois textos na cabeça.

Entenda, quando digo textos quero dizer duas ideias, dois caminhos. Às vezes só tem um, às vezes vários.

Talvez nem sejam textos, só vontade de esvaziar a cabeça de forma ordenada e linguisticamente aceitável. Tá parecendo o que para você?

Saio do banho correndo, passo um creme na cara (afinal já to mais no “enta” do que nos trinta) beijo o lindoh, que diz: tá inspirada?

Respondo: banho dá umas ideias. Vamos ver se é isso mesmo hahahaha

Parece que não, agora que eu sentei.

Pelo menos, não tô deixando o cursor piscando. Escrevi 103 palavras em 3 minutos. Bom número. Me digam onde posso anotar para concorrer a algum prêmio.

Fato é: talvez eu precisa escrever sobre o que eu tava pensando e não sobre um monte de merda sobre escrever.

Parece uma boa.

eu escrevo porque não sei o que penso até ler o que digo.❞ Flannery O’Connor

Pós Retrospectiva

Sou leitora compulsiva desde a adolescência. As panelinhas de amigos (patotinhas, no meu querido carioquês) nunca foram a minha praia e, considerando que eu nasci na era analógica, naquela época eu tinha poucos amigos e tempo de sobra para me dedicar a muitas leituras.

Quem me conhece sabe que eu sempre tenho um livro para indicar, e essa posição, evidentemente, me faz ter poucas opções e já ser muito crítica em relação à escrita alheia.

O que me salva sempre é o blog Por Onde Gabi For, por Gabi Galdino, por várias razões, mas destaco 3:

i. amo a Gabi com todo o meu coração e gosto de pensar que a recíproca é verdadeira;

ii. Gabi e eu temos basicamente o mesmo gosto literário e as críticas dela sempre fazem muito sentido para mim; e

iii. não é só mais um blog. É uma narrativa sobre coisas que funcionam pra minha vida, de comida e viagens que eu amo até cosméticos e os meus livros favoritos.

Como vocês já devem ter notado, o título é pós retrospectiva então evidentemente isso aqui não é sobre livros nem sobre o meu amor pela Gabi.

O que eu estou enrolando para contar para vocês (e vou enrolar mais um pouco) é que eu penso que o mundo e a vida são coisas absolutamente integradas, e de qualquer situação aleatória da vida, se você estiver ligada, você consegue fazer conexão com várias outras coisas.

E com isso, eu já introduzi para vocês o que eu queria dizer com pós retrospectiva: fiquei pensando sobre como eu sai de uma situação bem complexa com que me enfiei e da qual eu levei muito tempo para sair. Falei um pouco sobre essa situação no meu texto anterior, me sinto pronta para falar sobre onde as coisas se encontraram e como eu fui capaz de manter uma sanidade mínima para sair disso.

Não preciso dizer que “superar” relações que deram errado é um processo de várias etapas, principalmente num relacionamento tóxico. Desde o incomodo até você olhar para o que passou e dizer “estou bem” são fases e fases, recaídas e tristezas, incompreensões e impressões equivocadas.

353 palavras e nada né? Me desculpem, já deu pra notar que foco não é o meu forte.

E falando sobre as minhas crenças limitantes, isso me dá o gancho do que eu quero falar.

Quando eu disse na analise retrospectiva que não foi “do nada” que a minha situação mudou, eu decidi analisar quais foram os fatores que realmente se impuseram pelo meu caminho além de ter um marido que manda em mim e do fato de eu gostar de brincar de casinha, eles disseram (contém ironia).

E o primeiro fator, é claro, se conecta com a introdução ai cima com um monte de groselhas introspectivas sobre livros.

Quando a Gabi resenhou a tetralogia da Elena Ferrante eu me animei porque fazia tempo que não lia nenhuma sequência e eu amo sequencias — vide minha obsessão por HP e Crônicas de Gelo e Fogo.

O que eu nunca fui esperar foi a dimensão do impacto que a Lenu — personagem principal — ia me causar. Mandei inúmeras mensagens para a Gabi para falar do livro e o que mais esteve presente para mim foi o lugar onde Lenu e eu mais nos encontrávamos: no complexo de impostora.

“Apesar dos esforços contínuos para encontrar um lugar no mundo, Lenu nunca parece se sentir de fato confortável. Ela se torna reconhecida pelo seu trabalho literário, mas sempre enxerga poréns. Duvida de seus méritos. Acredita que é apenas o acaso. Acha que o que fez ainda não é suficiente. Está sempre questionando aquilo que foi capaz de botar no mundo. Essa leitura que ela faz de si própria acaba forçando a personagem a continuar sempre e sempre se debatendo com a vida; ela nunca descansa. E isso torna seus esforços tão frenéticos e intensos que a levam a vários dissabores.

Não por um acaso o livro faz bastante sucesso nos circuitos feministas. Além da Síndrome de Impostor na qual me reconheci tão facilmente, estão lá no livro outros aspectos bem singulares da sociabilidade feminina, como as relações mãe e filha, as violências silenciosas (e outras nem tanto) sofridas pelas personagens ao longo de toda tetralogia, a competição com sua amiga, e a tentativa de construir uma independência. A Síndrome de Impostor, no entanto, me pareceu tão significativa e determinante no rumo da vida da personagem que senti que precisava falar sobre ela, talvez para exorcizar também alguns dos meus demônios.”

trecho de Carla Soares, para o Mulheres que Escrevem

(Bem, se vocês nunca ouviram falar em complexo de impostora, parem tudo o que estão fazendo e vão pesquisar sobre isso agora. Se vocês não conhecem Elena Ferrante, leiam. Se vocês não têm o habito de ler, peloamordebeyonce, nunca é tarde para começar. )

Lenu se vê muitas vezes sufocada numa relação que seria, em tese, equilibrada e igual, mas a sua auto sabotagem e o perfil autocentrado de Lila, a amiga, desequilibram constantemente a relação, colocando até a carreira bem sucedida de Lenu em questão.

Vocês não podem imaginar o quanto eu me vi em Lenu, duvidando de mim mesma, questionando meus valores, meus planos, minha vida, minhas escolhas, minha capacidade e quantas vezes eu me peguei gritando, com ela e comigo todas as vezes em que a amizade febril esteve no topo das prioridades da vida dela e da minha.

Lenu e eu nos misturamos, nos confundimos, nos libertamos.

Essa tetralogia de livros me confrontou com a minha realidade. Com os meus medos, com os meus complexos, com tudo que eu queria ser e não era por minha única e exclusiva auto sabotagem.

É claro que esse descortinar não teve apenas esse ato. Teve tanta gente segurando a minha mão, me ouvindo gritar, chorar, surtar, duas, três, quatro, vinte vezes.

E esse pós retrospectivo se torna pra mim um objeto para expressar a minha gratidão por todas essas pessoas que acreditaram em mim mais do que eu, desde o primeiro olhar.

André, Luana, Gabi, Dani e Tay: vocês têm o melhor de mim.

Galera do Advogabilidade: eu vou morrer agradecendo o universo por ter nos unido com o timing mais perfeito.

Amanda, um dia eu te roubo pra mim e você vai ser minha sócia, pra gente brigar bastante e sair para tomar cerveja depois.

Bia e Layra, vocês, cada uma a seu modo, sabem onde estar na hora certa, sempre e isso é incrível. Gratidão pela fração de tempo e espaço que nos uniu.

Por fim, é importante dizer que nominar pessoas publicamente em agradecimento é se colocar presente no risco de esquecer de alguém importante. É isso que eu quero para o meu 2020 e desejo para o seu.

Corra riscos.

Assuma a responsabilidade por quem você é e pelo que você quer ser.

Peça desculpas quando fizer merda e se não tiver oportunidade de corrigir seus erros, nunca se esqueça que é só na matriz do erro que a gente aprende a acertar.

Muita gente vai ficar pelo caminho. Muita mesmo. Esteja preparada para perde-las.

Esteja também aberto a quem chega, ao novo e às possibilidades. A merda costuma ser quentinha mesmo mas vale se questionar se é isso mesmo, sempre e sempre.

Aos erros, o peso que eles merecem.

Aos acertos, comemoração sempre. Com vinho bom, comida boa, música boa e com abraços dos amigos.

A vida vale a pena. Não se economize.

de quando eu ainda não tinha me ouvido gritar com Lenu

Em retrospectiva

do Castelo de São Jorge avisto Lisboa em janeiro de 2018.

Preciso dizer que não foi “do nada”.

Aliás, nunca é, né?

Sempre existem um milhão de pequenas coisas, pequenas mensagens reveladas em gestos mínimos. Obviamente que ignoramos todos os sinais e só focamos naquilo que nos mantem resplandecentes em nossa quentinha merda de conforto, digo, ZONA de conforto.

A tempo de já avisar que essa retrospectiva contém uma fraude. Ela está sendo escrita meio que ao mesmo tempo em que é vivida porque eu ainda estou me tornando uma sobrevivente na minha própria história. Se, como nos ensina a — grande fonte do conhecimento moderno — Wikipedia “Retrospectiva significa rever e relembrar eventos que já ocorreram, em forma de um relato ou análise” fica claro que a minha retrospectiva ao vivo é inovação ou fraude.

Bem, fato é que isso é o que menos importa nessa analise emocionada ainda com certa efervescência do que aflora nesses dias tão estranhos do final desse ano estranho de 2019*.

Pois bem.

É difícil deixar certas coisas passarem, mas um dos meus esportes favoritos é reagir muito, muito, muito bem no momento (ariana, né, mores? Tarefeira por excelência) e depois ficar com o psicológico completamente fodido quando começo a processar tudo na real.

(pausa para analisar um aspecto controverso da minha natureza mais pura desse último parágrafo: ser reativa é uma das razões por eu ser tão boa em cumprir tarefas, parece que o jogo virou, não é mesmo?)

Tento parar de enrolar, não consigo. O que eu queria era ir direto ao ponto e dizer que não foi do nada mesmo que tudo terminou.

Certo desconforto com algumas falas, com algumas posturas. Durante bastante tempo o desconforto não fazia sentido, não me mostravam a peça que estava faltando para que eu alinhasse meu olhar.

Tô enrolando né? Queria ser poética com essa dor. Mas, para falar a verdade, a dor de uma irmandade traída não dá pra florear.

A sua intensidade não me deixou ver que você me roubava de mim, pouco a pouco. Se aproveitando da minha sincera desnecessidade de palco e palanque, você tomou para si o que eu pensava estar compartilhando de mim com você.

Quando você se engaja num trabalho de base e alguém adere, replica, é mágico. Quem se engaja no trabalho de base sabe que pouco importa o mensageiro e muito revoluciona a mensagem.

Mas você foi me esvaziando, tirando minha força e minha confiança no que eu já sabia. Você se engajou, subiu no palco e se deslumbrou com as luzes. Eu, me alimentando da sua fonte de outras coisas que eu não conhecia, fui deixando que a mensagem fluísse por outro mensageiro. É preciso ganhar a vida, palanque não paga os meus boletos.

Mas começou a pagar os seus.

O desconforto que não faz sentido mandando recados e eu ignorando solenemente.

Seu deslumbramento com o palco, com as luzes, com a plateia te fez acreditar que a mensagem e a luta eram suas. Que os seus boletos eram mais importantes porque o SEU modo de lutar na SUA luta para passar a SUA mensagem justificava tudo.

(eita cheia de mágoa né? Hahaha experimente ser explorada por uma pessoa da sua confiança que prometeu não soltar a sua mão)

A incredulidade se juntou ao mero desconforto quando, de lá da coxia eu te avisei várias vezes: “ei, ninguém solta a mão de ninguém, lembra?” e você fingiu não me ouvir. Custo a acreditar que esse é o mesmo feminismo que eu advogo do meu pequeno degrau.

Não é.

Atravesso o teatro, as luzes acessas, o publico te aplaudindo. Você brilha no espaço que ocupou como pode.

Mas bem sei que as luzes cegam a gente e eu preciso ver sempre mais e mais. Em terra de cegos, quem vê o outro é que é rei.

Passo pela plateia lotada despreocupadamente, finalmente tendo transformado, com ajuda da incredulidade, o desconforto na peça que faltava para eu entender que meu trabalho tinha terminado com você.

Saio pela porta da frente. Abraços os amigos que fiz nesse caminho. Sorrio a quem se escandaliza e se indigna com quem apenas segue em frente.

No primeiro desconforto, lá atrás, eu já sabia que ia ser assim. A gente pode dizer: “oh, é a vida. Cada uma pro seu lado”.

Entretanto a verdade que pulsa em mim veio antes de mim. Deixo a bel no fim explicar e termino com o silencio de quem sabe as dores e as delicias de fazer a escolha certa.

Não, não foi “do nada”.

Muito veio

antes do fim para que

em atraso

nascesse urgente

o desejo da chegada do ocaso.

A sororidade feminista está fundamentada no comprometimento compartilhado de lutar contra a injustiça patriarcal, não importa a forma que a injustiça toma. Solidariedade política entre mulheres sempre enfraquece o sexismo[1] e prepara o caminho para derrubar o patriarcado. É importante destacar que a sororidade jamais teria sido possível para além dos limites da raça e classe se mulheres individuais não estivessem dispostas a abrir mão de seu poder de dominação e exploração de grupos subordinados de mulheres. Enquanto mulheres usarem poder de classe e de raça para dominar outras mulheres, a sororidade feminista não poderá existir por completo.” bel hooks (o feminismo é para todos: politicas arrebatadoras — cap. 3)

Eu leio mulheres negras.

[1]No inglês, o machismo é tratado por sexismo.

*publicação original do instagram de 31/12/2019

Perdão contador de novas histórias

Vivemos sob a égide do desculpismo. Os bebes são ensinados, desde o passeio da pracinha na caixa de areia a pedir desculpas ao amiguinho por ter exagerado naquele carinho.

As crianças, obrigadas a pedir desculpas por fazer birra ao não querer beijar aquela tia velha com cheiro de mofo ft. canfora ft. água de colônia. (eca, como culpa-las?)

Os adultos, treinados desde cedo vão logo pedindo suas mal arrependidas e evidentemente irrefletidas desculpas porque isso resolve muita coisa.

Só que não.

Você já pediu desculpas só para encurtar uma situação? Aposto que sim. Eu também.

Eu, aliás, que vim de uma família de poucas palavras (poucas mesmo) nem desculpa se pediu. A gente vai consertando a merda com várias atitudes que julgados serem adequadas e gentis com aquela grandessíssima cara de merda de quem fez merda e está arrependido, mas é incapaz de pedir desculpas.

Tenho certeza de que vocês sabem do que eu to falando. Pela vida, topei com uma quantidade enorme de gente “desculpa” e gente que conserta merda à base da cara de merda e gestos de reconciliação. Todos válidos, diga-se de passagem, porque isso aqui não é um tribunal, né mores?

Mas eu queria mesmo puxar esse papo da minha família porque eu queria falar da minha avó. Ano passado ela ficou felizona com um panetone da lata de uma marca chique que eu só digo o nome se rolar um publi né? — mentira que eu não sou vendida pra capital nenhum — notaram meus neurônios discutindo?.

Aí o tal panetone famoso

Enfim, 7 meses depois minha vó se foi.

E não foi do nada. Nunca é, aliás. Vamos falar mais disso outra hora, tá?

Enfim. Minha vó morreu de tristeza, de desgosto, de mágoas que ela cultivou com afeto achando que a vida era mesma feita disso. Pera. Cultivou mágoa com afeto? Sim. Já disse que minha família é estranha? Se eu pareço normal (às vezes) é crédito dos Portes. ❤

Mas voltando à minha vó, ela era uma pessoa difícil. Qualquer parnaibano tem uma história de terror com ela pra contar. Chata, implicante, daquelas pessoas que tem prazer em constranger os outros sabe? Qual a melhor profissão para uma pessoa dessas?

Acertaram. Minha vó lidava com o público, dentro de um postinho de saúde – inclusive ela odiava e perseguia quem chamava de postinho. “É POSTO DE SAÚDE”, dizia a mal-humorada.

Pro meu eu adulta, minha vó era uma daquelas figuras engraçadas que toda cidade tem. Até charmosa.

Mas quando você é criança e não é a favorita muuuito pelo contrário, inclusive ter uma vó dessas é, na verdade, traumatizante. Não sei quanto da minha terapia eu devo ao fato de ter morado anos com a minha vó me infernizando (sério, leve isso à sério), ao ponto da minha mãe ficar sem falar com ela, tamanha a dimensão da ruindade da minha vó comigo.

B-e-m e-s-p-e-c-i-f-i-c-a-m-e-n-t-e-c-o-m-i-g-o.

(eu à esquerda, a vovó sorridente ao meio e minha sista Tata à direita)

Sei que vocês já estão associando a história ao desfecho pelo título. Mas não se iludam. Não temos uma cena de reconciliação novelística, sabe?

Um belo dia, depois que meu filho já tinha cerca de um ano, eu vi a importância de certos laços. Um laço que não necessariamente era de afeto, com camadas e camadas de mágoas e rancores. Mas o laço mais forte que faz as pessoas, ainda que distantes ou indiferentes, não precisarem explicar quem são.

É o laço do sangue. E não, queridos, não tô aqui para falar que família é mais importante que tudo não. Se a sua família te humilha, não te reconhece, viola quem você é na sua essência, mete o pé. Ninguém é obrigado a amar família não, Deus me livre. Não é isso, sabe?

Já diria um filho da minha vó: “parente é serpente”.

Tenho uma triangulação astrológica de aries, libra com câncer, e sério, essa é uma coisa que eu amo do fundo do meu coração nesse céu que me deram: eu simplesmente tenho uma profunda dificuldade em cultivar mágoas.

Deixo a água do tempo lavar, levanto e sigo em frente. Vamos ver que merda você é capaz de fazer para me magoar agora olha aí a lua em câncer.

Bem, o que aconteceu foi que eu encontrei a minha avó depois de uns 5 anos sem nenhum contato. Levei meu filho para ela conhecer. E ela estava lá, no castelo de solidão e indiferença que ela construiu para ela mesma.

E, sem pensar (por favor, acredite: eu só achava fofo meu filho ter uma bisavó), eu escolhi não proporcionar a ela o isolamento e a inadequação que ela sempre fez questão empurrar para mim. Percebi, adulta, que aquele não pertencimento que ela pretendeu — e talvez tenha conseguido em partes — incutir em mim era, na verdade, dela. Da história que ela não viveu. De quem ela deixou de ser. E do caminho que ela nunca encontrou de volta para ela mesma.

Quem me conhece de perto sabe o quanto eu fui próxima dessa minha malvada favorita nos últimos 10 anos, até ela falecer em julho de 2019. Com todos os demônios que ela achava que tinha, morreu dormindo, em silêncio e paz, depois do filho favorito lhe ajeitar as cobertas.

Escolher perdoar as mágoas com a minha avó talvez pareça pelas convenções sociais a coisa certa a fazer mesmo com todas as dificuldades. Sério gente, minha vó foi tão ruim para mim na infância que uma parte da minha família sempre ficou abismada com a nossa aproximação.

Mas o que eu queria dizer é que o perdão veio em silencio dos dois lados, com gestos de afeto e algumas caras de merda. Não foi difícil nem constrangedor nem sofrido. Apenas foi acontecendo, sem decisão, nem cena nem nada. Apenas compreendendo que não havia tempo a perder.

É claro que minha vó comentou varias vezes como nós brigávamos e nunca nos entendíamos na minha infância. Contava rindo isso para outros, comentando como eu era difícil haha. Para ela, eu é que tinha mudado. Bem…para mim, isso tinha vindo dela.

A verdade é que alguns perdões precisam de tempo para contar uma nova história. E essa minha nova história com a minha vó é agora uma história de saudades do que nós conseguimos viver.

Eu esperava ter mais tempo e não tive. Tinha muita vida que eu queria viver com você, vó! Muita cerveja pra gente tomar escondido, muita chamada de vídeo para falar de absolutamente nada e de absolutamente tudo. Muitos olhos para virar enquanto você implica reciprocamente com seu “neto favorito”.

Toda essa vida que tivemos é a nossa história nova, que o perdão silencioso e sincero deixou para nós.

Até breve.