Em retrospectiva

do Castelo de São Jorge avisto Lisboa em janeiro de 2018.

Preciso dizer que não foi “do nada”.

Aliás, nunca é, né?

Sempre existem um milhão de pequenas coisas, pequenas mensagens reveladas em gestos mínimos. Obviamente que ignoramos todos os sinais e só focamos naquilo que nos mantem resplandecentes em nossa quentinha merda de conforto, digo, ZONA de conforto.

A tempo de já avisar que essa retrospectiva contém uma fraude. Ela está sendo escrita meio que ao mesmo tempo em que é vivida porque eu ainda estou me tornando uma sobrevivente na minha própria história. Se, como nos ensina a — grande fonte do conhecimento moderno — Wikipedia “Retrospectiva significa rever e relembrar eventos que já ocorreram, em forma de um relato ou análise” fica claro que a minha retrospectiva ao vivo é inovação ou fraude.

Bem, fato é que isso é o que menos importa nessa analise emocionada ainda com certa efervescência do que aflora nesses dias tão estranhos do final desse ano estranho de 2019*.

Pois bem.

É difícil deixar certas coisas passarem, mas um dos meus esportes favoritos é reagir muito, muito, muito bem no momento (ariana, né, mores? Tarefeira por excelência) e depois ficar com o psicológico completamente fodido quando começo a processar tudo na real.

(pausa para analisar um aspecto controverso da minha natureza mais pura desse último parágrafo: ser reativa é uma das razões por eu ser tão boa em cumprir tarefas, parece que o jogo virou, não é mesmo?)

Tento parar de enrolar, não consigo. O que eu queria era ir direto ao ponto e dizer que não foi do nada mesmo que tudo terminou.

Certo desconforto com algumas falas, com algumas posturas. Durante bastante tempo o desconforto não fazia sentido, não me mostravam a peça que estava faltando para que eu alinhasse meu olhar.

Tô enrolando né? Queria ser poética com essa dor. Mas, para falar a verdade, a dor de uma irmandade traída não dá pra florear.

A sua intensidade não me deixou ver que você me roubava de mim, pouco a pouco. Se aproveitando da minha sincera desnecessidade de palco e palanque, você tomou para si o que eu pensava estar compartilhando de mim com você.

Quando você se engaja num trabalho de base e alguém adere, replica, é mágico. Quem se engaja no trabalho de base sabe que pouco importa o mensageiro e muito revoluciona a mensagem.

Mas você foi me esvaziando, tirando minha força e minha confiança no que eu já sabia. Você se engajou, subiu no palco e se deslumbrou com as luzes. Eu, me alimentando da sua fonte de outras coisas que eu não conhecia, fui deixando que a mensagem fluísse por outro mensageiro. É preciso ganhar a vida, palanque não paga os meus boletos.

Mas começou a pagar os seus.

O desconforto que não faz sentido mandando recados e eu ignorando solenemente.

Seu deslumbramento com o palco, com as luzes, com a plateia te fez acreditar que a mensagem e a luta eram suas. Que os seus boletos eram mais importantes porque o SEU modo de lutar na SUA luta para passar a SUA mensagem justificava tudo.

(eita cheia de mágoa né? Hahaha experimente ser explorada por uma pessoa da sua confiança que prometeu não soltar a sua mão)

A incredulidade se juntou ao mero desconforto quando, de lá da coxia eu te avisei várias vezes: “ei, ninguém solta a mão de ninguém, lembra?” e você fingiu não me ouvir. Custo a acreditar que esse é o mesmo feminismo que eu advogo do meu pequeno degrau.

Não é.

Atravesso o teatro, as luzes acessas, o publico te aplaudindo. Você brilha no espaço que ocupou como pode.

Mas bem sei que as luzes cegam a gente e eu preciso ver sempre mais e mais. Em terra de cegos, quem vê o outro é que é rei.

Passo pela plateia lotada despreocupadamente, finalmente tendo transformado, com ajuda da incredulidade, o desconforto na peça que faltava para eu entender que meu trabalho tinha terminado com você.

Saio pela porta da frente. Abraços os amigos que fiz nesse caminho. Sorrio a quem se escandaliza e se indigna com quem apenas segue em frente.

No primeiro desconforto, lá atrás, eu já sabia que ia ser assim. A gente pode dizer: “oh, é a vida. Cada uma pro seu lado”.

Entretanto a verdade que pulsa em mim veio antes de mim. Deixo a bel no fim explicar e termino com o silencio de quem sabe as dores e as delicias de fazer a escolha certa.

Não, não foi “do nada”.

Muito veio

antes do fim para que

em atraso

nascesse urgente

o desejo da chegada do ocaso.

A sororidade feminista está fundamentada no comprometimento compartilhado de lutar contra a injustiça patriarcal, não importa a forma que a injustiça toma. Solidariedade política entre mulheres sempre enfraquece o sexismo[1] e prepara o caminho para derrubar o patriarcado. É importante destacar que a sororidade jamais teria sido possível para além dos limites da raça e classe se mulheres individuais não estivessem dispostas a abrir mão de seu poder de dominação e exploração de grupos subordinados de mulheres. Enquanto mulheres usarem poder de classe e de raça para dominar outras mulheres, a sororidade feminista não poderá existir por completo.” bel hooks (o feminismo é para todos: politicas arrebatadoras — cap. 3)

Eu leio mulheres negras.

[1]No inglês, o machismo é tratado por sexismo.

*publicação original do instagram de 31/12/2019

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