O poder do individuo

Publicado originalmente no Instagram em 14/10/2019

Comprou canudo de metal? Ah mas e o monte de plástico que vem de embalagem?

Luta pela igualdade social? Ah mas você então não pode usar Iphone…

Você faz doação para o Médico sem Fronteiras? A mas e as pessoas em situação de rua da Tijuca.

Todo mundo que, de algum modo, tenta colaborar minimamente para fazer do mundo um lugar melhor esbarra uma hora ou outra com algum desses questionamentos aí de cima.

Parece que é impossível ver o outro em uma ação coletiva sem que a culpa por não estarmos fazendo nada ou tanto imediatamente acione o modo sabotagem. Oras, como é possível que você esteja fazendo isso e eu não? Como eu não pensei nisso antes?

Bem, mas esse texto aqui não é pra falar sobre essa ideia boba de competição pelo politicamente correto, até porque ele está bem fora de moda ultimamente. O que eu queria falar mesmo com vocês é sobre o poder das ações pequenas, solitárias, silenciosas, quase invisíveis ações individuais.

Vivemos num mundo em que cada vez mais olhamos para as telas e menos para os outros. Eu mesma ando com meus óculos escuros e fone de ouvido a maior parte do tempo só pra evitar pessoas.

Comecei pós-graduação ao mesmo tempo em que uma grande amiga e me peguei conversando com ela sobre o quão bom é voltar a estudar o que amamos. O problema são as pessoas…puta merda, que preguiça de gente.

Porque gente é aquilo né? Existe, causa transtorno e não tem botão de pause, basicamente rs.

Gente que pensa diferente da gente, gente que não segue as nossas regras, gente que vive em cima do muro, que deixa as coisas pros outros decidirem, gente que anda pelo mundo e que só faz o que quer, que reage à tudo, que faz o que dá na telha, que dá palpite em tudo, que tem vontade própria, que só faz as coisas no seu próprio tempo e do seu próprio jeito.

E não sei vocês, mas os meus problemas nesse ponto são vários: moro com pessoas, trabalho com pessoas. Aonde quer que eu vá, adivinhe só: cheinho de pessoas. No metro, na aula de inglês, no fórum…enfim. Às vezes dá preguiça ter que explicar meu ser no mundo para pessoas dentro do ser no mundo delas.

E aí que esse texto chama “o poder do indivíduo e dos pequenos gestos” justamente porque, embora eu preferisse imensamente que o mundo fosse do meu jeito e atendesse aos meus desejos sem muitos transtornos, me parece que alguma lei da natureza me colocou num espaço com recursos limitados e com outros 7,7 bilhões de mini-universos.

Às vezes tenho a impressão de que jamais vou superar essa sacanagem do Grande Universo, porém a maior parte do tempo me parece que a minha melhor opção é encontrar um meio de sobreviver no meio dessa “galerinha”, intersecionando milhares de infinitos particulares. E por incrível que pareça, é no jeito de se relacionar com uma variedade imensa de interesses divergentes é que moram as transformações.

Então seguindo para algum rumo com essa fanfarronice toda do universo na nossa vida (e a minha aqui nessas linhas irrelevantes), o que eu pensei mesmo sobre tudo isso e que faz uma conexão desde a competição pelas melhores ações até a nossa obrigação de conviver da melhor forma no mundo é sobre a possibilidade de revolucionar com um simples gesto.

Um sorriso de compreensão para alguém que correu e conseguiu pegar o metro a tempo. Um elogio ao bom atendimento ou à boa comida que te foi servida no restaurante onde você almoça todo santo dia. Uma brincadeira boba com aquela criança pequena durante uma espera aborrecidíssima no consultório médico. Um copo d´água para o entregador.

Nenhuma dessas ações toma mais do que um minuto do seu tempo. Nenhuma delas custa dinheiro. Todas elas podem mudar o dia de alguém.

E a ideia de que é preciso ser um gesto grandioso para alterar a realidade em que vivemos é absolutamente contraditória com a nossa natureza essencialmente construtora de bem estar coletivo, em que o nosso próprio modo de viver e de deliberar juntos é o que faz de nós socialmente funcionais (oi Aristóteles, eu ensaiei mil jeitos de te mencionar essa semana).

Será que um conselho infalível para aquela amiga que veio desabafar ou um puta textão sobre a última grande cagada do presidente são mais revolucionários do que recolher silenciosamente uma sacola voadora que atravessa o seu caminho?

(acabei de googlar a palavra “cagada” para ver se achava uma mais interessante e o primeiro resultado que aparece é um vídeo intitulado “Mais uma cagada do Bolsonaro”, então quem sou eu pra quebrar a tradição, não é mesmo? Vou postar o print da tela pra vcs não acharem que eu falo mal do governo à toa)

pesquisa do google

Como vocês já sabem, meus mores, as respostas são por conta da freguesia. A mim, cabe só a pequena e inútil tarefa de criar a treta e, com alguma sorte, revolucionar o dia de alguém.

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