Precisamos falar sobre tudo?

publicado originalmente no instagram em 07/10/2019

Tudo bem que nenhum homem seja uma ilha. Sentimos um profundo, urgente e inadiável desejo de pertencer, de sermos reconhecidos pelos nossos pares. Isso faz parte da substancia humana. As redes sociais são o instrumento de mão dupla da vida moderna, potencializando esse sentimento gregário ao mesmo tempo em que acalenta nosso coração carente de likes, em que estamos comentando, criticando, se posicionando, argumentando, repostando e reagindo, quase em tempo real, com tudo o que acontece não só na nossa rede, mas no mundo inteiro.

Hoje, zapeando pelo Youtube, vi um vídeo de um canal brasileiro (que tem mais de 2 milhões de inscritos) analisando as expressões faciais de Greta Thunberg enquanto ela discursava na ONU sobre o clima alguns dias atrás.

Não que eu me leve a sério, nem nada. Sou especialista em groselhas, inclusive. Mas já tem um tempo que eu tenho pensado sobre isso e querendo falar com vocês, por motivos de: expliquei lá no inicio hahahaha.

Como ativistinha da Estrela™ que sou, conheço e sigo muita gente que milita em várias pautas, com uma atuação forte na internet, principalmente. O que eu percebo em muitos perfis é que a nossa necessidade básica de socializar potencializada pela publicidade da internet acaba por criar uma demanda por comentar e ter opinião sobre tudo o que acontece.

Até aí, normal né? Os fiéis da porta da escola e aquela tia que fica na janela cuidando e comentando da vida alheia existem desde que o mundo é mundo, fenômeno que afeta particularmente as mães de recém-nascido, que pode ser classificado em fofoca ou palpite, conforme quem professa.

O que relaciona o vídeo sobre as expressões da Greta, a nossa vida online e a necessidade de pertencer nessa treta que eu estou querendo criar aqui é uma pergunta que ressoa há muito tempo na minha cabeça: Porque precisamos falar de tudo, ter opinião formada sobre tudo?

É claro que vocês já sabem que a resposta é: não precisamos. E eu, especialista em absolutamente nada, posso afirmar com convicção a vocês: a nossa necessidade de se relacionar potencializada pela possibilidade de nossa opinião formada sobre tudo estar disponível para validação do universo com acesso à internet cria uma falsa sensação de que somos mais importantes e necessários do que realmente somos. Ou cria discussões ou controvérsias absolutamente desnecessárias, para dizer o mínimo.

Por outro lado, existe um aspecto dessa realidade que é uma validação de discursos que só existem quando falamos em público, usando o discurso competente como palanque para interesses nem sempre tão genuínos quanto são certas pautas.

Sendo mais objetiva, existe a opinião dada sobre tudo que vai se justificar pura e simplesmente pelo meu ego inflado e pela minha necessidade de aprovação social e existe a opinião dada sobre tudo que constrói uma persona pré-aprovada socialmente pela audiência na internet e que é meramente discursiva.

Um ótimo exemplo disso é a militância feminista. Cresce como mato a quantidade de gente surfando na superfície das bandeiras de igualdade de gêneros, repostando, comentando e empunhando bandeiras apenas para criar uma história para o seu negócio. É homem fazendo coaching para empoderar mulheres, é mulher explorando selvagemente o trabalho informal de outras mulheres vendendo serviços humanizados e acolhimento feminino, é cerveja rosa para mulher, flor, bombom e descontos em cosméticos no famigerado dia das mulheres…

Todas essas ações que orbitam o feminismo e criam uma história ligada à luta pela igualdade de gêneros, mas que possuem intuito de acumulação de capital são problemáticas porque debate sobre a aliança entre o capitalismo e o patriarcado é um dos grandes temas no movimento.

Do mesmo modo temos a problemática do pink Money, do black Money e outros tantos movimentos sociais importantes que encontram mais degraus do que verdade e legitimação na expressão dessas opiniões e discursos pseudo-ativitas, que acabam por disseminar meias verdades e reforçar estereótipos e favorecendo a polarização e segregação das pessoas.

Com tudo isso rolando, como então podemos separar o joio do trigo — ou como separar os autênticos biscoiteiros de quem cria uma narrativa sofisticada para vender uma imagem, produto ou serviço? Será possível essa distinção? Será que ela é necessária?

Essas respostas deixo procês mores, porque eu só vim dar a minha não solicitada, inútil e inconclusiva opinião pra criar essa treta aqui.

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